Indústria à espera de um sinal

Novos números, oficiais, contrastam com sinais positivos apresentados em recente relatório da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2019 | 03h00

Mais um forte sinal de alerta acaba de soar, com o primeiro e inquietante balanço oficial da atividade da indústria em janeiro. A produção industrial, a principal fonte de empregos decentes, foi 0,8% menor que a do mês anterior. Essa nova queda mais que anulou a tímida recuperação ensaiada em dezembro, quando o volume produzido cresceu 0,2%, na série com desconto dos efeitos sazonais. Nem a posse do governo, saudada com manifestações de otimismo pelo empresariado, foi suficiente, portanto, para impulsionar o setor e mudar sua trajetória. A tendência de queda marcou a segunda metade de 2018, com taxas negativas em quatro dos seis meses. O volume produzido em janeiro foi 2,6% inferior ao de um ano antes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Os novos números, oficiais, contrastam com sinais positivos apresentados em recente relatório da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo esse documento, em janeiro a indústria de transformação apresentou aumento nas horas de trabalho na produção, no emprego e no uso da capacidade instalada. 

Diferenças de cobertura e de metodologia podem explicar pelo menos parcialmente as divergências entre as duas pesquisas, uma levemente animadora, outra amplamente negativa. De toda forma, o balanço do IBGE mostra de forma clara a fraqueza predominante nos dois grandes subconjuntos, a indústria de transformação e a extrativa (esta com recuo mensal de 1% em janeiro). 

O quadro é especialmente ruim quando se consideram as categorias definidas pela finalidade de seus produtos. Em janeiro a produção caiu em três dos quatro grandes grupos. Houve queda mensal de 3% no segmento de bens de capital, de 0,1% no de bens intermediários e de 0,4% no de bens de consumo semiduráveis e não duráveis. Só se anotou expansão no grupo de bens de consumo duráveis, mas o resultado (0,5%) ficou muito longe de reverter a perda de 5,2% acumulada no bimestre final de 2018. 

Nos quatro grandes segmentos a produção foi menor que a de janeiro de 2018. Nesse confronto, houve redução de 7,7% no volume produzido de bens de capital, 1,3% no de bens intermediários, 5,5% no de bens de consumo duráveis e 2,9% no de bens de consumo semi e não duráveis. A produção total de bens de consumo de todos os tipos foi 3,4% inferior à de um ano antes, embora a variação acumulada em 12 meses tenha continuado levemente positiva (+0,8%). 

O financiamento explica em boa parte o desempenho ainda positivo do setor de bens de consumo duráveis, como automóveis. Ressalvado esse ponto, o comportamento dos consumidores continua geralmente muito cauteloso e muito restrito. Isso é facilmente atribuível ao desemprego ainda elevado (cerca de 12% da força de trabalho, taxa equivalente a mais de 12 milhões de trabalhadores) e à insegurança quanto à evolução da atividade. Consumidores têm mostrado algum otimismo, em várias pesquisas, mas a expectativa de tempos melhores continuou insuficiente, em janeiro, para estimular maiores despesas. Além disso, o endividamento continua elevado e quem conseguiu reorganizar a vida financeira deve estar muito prudente. 

A piora do segmento de bens de capital (máquinas e equipamentos) é especialmente preocupante. Em dez meses de 2018 esse grupo de empresas produziu mais do que um ano antes. A comparação foi negativa em maio (-6,4%) por causa da crise do transporte rodoviário, e novamente em dezembro (-4,1%). O número de janeiro (-7,7%) parece apontar uma disposição bem menor, no conjunto das empresas, de investir na capacidade produtiva. A recuperação em 2018, embora modesta, ainda foi um importante sinal positivo, embora boa parte do investimento deva ter consistido na reposição ou substituição inadiável de máquinas e equipamentos.

O quadro geral parece indicar uma insegurança ainda difusa entre os empresários, apesar de suas declarações mais otimistas, ou menos pessimistas, sobre o futuro da economia. Para passar à ação eles dependem de sinalização mais clara do governo – bem mais clara e estimulante que os tuítes habituais do presidente. 

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