Indústria à espera de uma política

A indústria cresceu em fevereiro e março, mas continua longe de retomar o dinamismo perdido há uma década

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2022 | 03h00

Promover a recuperação e a modernização da indústria deveria ser prioridade do governo federal, se houvesse um presidente e uma equipe econômica interessados na prosperidade do País. Enquanto se espera a mudança no centro do poder, prossegue o retrocesso da economia. Dois meses de crescimento – 0,7% em fevereiro e 0,3% em março – foram insuficientes para a indústria compensar a perda de 2% em janeiro e fechar o primeiro trimestre no azul e em melhor condição do que antes da pandemia. Liderados pelo setor automobilístico, 14 dos 26 ramos cobertos pela pesquisa mensal produziram mais em março do que no mês anterior. Mas a média trimestral ainda ficou 0,4% abaixo daquela registrada nos três meses finais de 2021. Além disso, o volume acumulado em 2022 foi 4,5% inferior ao de um ano antes. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A produção de março ficou 2,1% abaixo daquela observada 12 meses antes. Pelo oitavo mês consecutivo, essa comparação mostrou recuo. Além disso, o volume produzido em março foi 2,1% menor que o de fevereiro de 2020, antes dos danos causados pela pandemia.

Como tem ocorrido em muitos países, a atividade industrial tem sido prejudicada, no Brasil, por desajustes globais. Primeiro ocorreram problemas de suprimento decorrentes da pandemia. Houve dificuldades de transporte e falhas na produção de semicondutores e de outros insumos. Depois vieram desarranjos na oferta de petróleo, gás e cereais, causados pela agressão russa à Ucrânia. A recente baixa da produção chinesa, resultante de restrições vinculadas a um surto de covid-19, complicou o cenário. Desde o começo da pandemia, os desajustes de suprimento e de produção foram agravados pela alta de preços.

A onda inflacionária vem sendo enfrentada em várias economias, incluídas a americana e a brasileira, com aumentos de juros destinados a conter a demanda. Também essa política deve arrefecer o crescimento industrial. No Brasil, o efeito tende a ser mais doloroso, porque o mercado interno vem sendo, há mais tempo, afetado pelo desemprego e pela redução da renda familiar. A persistência da inflação, já acima de 12% em 12 meses, torna mais difícil a recuperação da atividade. Mesmo com alguma melhora, a maior parte das projeções indica expansão econômica abaixo de 1% neste ano. A mediana das estimativas aponta crescimento de apenas 1% em 2023.

A crise da indústria, no Brasil, é muito mais que um problema conjuntural. O setor mostrou pouco dinamismo na maior parte dos últimos dez anos. Depois do tombo de 2020, ocasionado pela pandemia, houve forte reação da atividade em muitos países. No Brasil, a indústria de transformação produziu 4,9% mais que em 2020, mal conseguindo compensar a perda de 4,8%, de acordo com os dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido). A indústria de transformação brasileira ficou em 82.º lugar numa lista de 113 países. Se o próximo governo der alguma atenção a esses fatos, o futuro será mais animador.

 

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