Indústria em baixa, governo omisso

Indústria do País perde peso na produção mundial e retrocede, mas o presidente e sua equipe parecem ignorar os fatos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2021 | 03h00

O Brasil está encolhendo no mapa mundial da indústria. O País figurou por vários anos, até 2014, entre os dez maiores produtores industriais, mas vem perdendo posições. Em 2020 ficou no 14.º lugar, superado pela Rússia. Também a participação nas exportações do setor tem diminuído. Em 2009 as vendas brasileiras corresponderam a cerca de 1,5% do valor comercializado internacionalmente, pela indústria de transformação. A parcela do Brasil chegou a 0,83% em 2019 e em 2020 deve ter caído para 0,78% (30.ª posição), segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A produção industrial brasileira foi mais afetada que a de outros países pelo enfraquecimento recente da economia global. O valor das exportações mundiais diminuiu 3,3% em 2019 e cerca de 6,5% em 2020, segundo estimativas citadas no relatório da CNI. No caso das vendas brasileiras, o recuo pode ter chegado a 7,6% e 12,6%. A pandemia de covid-19 ampliou dificuldades já sensíveis da economia global, mas no Brasil o quadro era bem pior. O País mal havia iniciado a recuperação da crise de 2015-2016, uma recessão estritamente nacional, e sua indústria já acumulava quase dez anos de mau desempenho.

A fraqueza do setor industrial brasileiro ficou evidente no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Excetuados alguns grupos e segmentos setoriais, o desempenho da indústria de transformação foi sempre medíocre, ou abaixo disso, a partir de 2012-2013. Mas o retrocesso havia começado antes disso, quando a proteção oficial se exacerbou e os investimentos em inovação e em modernização começaram a escassear.

Décadas de esforço de industrialização, especialmente notáveis desde o fim da 2.ª Guerra Mundial, foram interrompidas. O agronegócio continuou a modernizar-se, a ganhar poder de competição e a garantir uma importante presença no mercado global. A tendência oposta predominou na indústria, especialmente na manufatura. O ramo aeronáutico tem sido uma das exceções. Velhos problemas permanecem e se agravam: proteção excessiva e mal planejada, tributação disfuncional, financiamento caro, complicações burocráticas, mão de obra mal preparada, pouca integração internacional e carência cada vez mais grave de políticas de tecnologia.

No terceiro trimestre o aumento do produto industrial foi nulo, segundo os dados do Produto Interno Bruto (PIB). Em oito meses de janeiro a outubro o resultado mensal foi negativo. Em outubro o setor produziu 4,1% menos que em fevereiro de 2020, último mês pré-pandemia. O setor já havia piorado em 2019. Os dados são claros, mas o poder central permanece omisso.

Aparentemente incapazes de perceber os problemas e a própria função, o presidente Jair Bolsonaro e seus auxiliares cuidam de outros assuntos. Nem discutem a crise industrial nem esboçam objetivos e programas para promover a reconstrução do setor. Ao retrocesso econômico juntou-se uma reversão muito mais grave – o desaparecimento, nos postos principais de Brasília, das noções de governo e de construção nacional. 

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