Inflação ainda assombra

Preços subiram menos em junho, mas ainda assustam as famílias e desafiam o Copom

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2021 | 03h00

Apesar do recuo, a inflação continuou acelerada em junho, atormentando as famílias e mantendo um duro desafio para o Banco Central (BC), principal defensor do poder de compra do dinheiro. Com alta de 0,53% no mês passado, o IPCA, o mais importante sinalizador da evolução dos preços, acumulou aumento de 3,77% no ano e de 8,35% em 12 meses, superando com folga a onda inflacionária mundial. Em maio a subida havia sido bem maior (0,83%), mas seria muito otimismo falar em trégua. Os dados são do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Diante dos preços em disparada, os dirigentes do BC terão, de novo, um duro problema para resolver na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em agosto. Deverão decidir, mais uma vez, se apertam mais fortemente a política anti-inflacionária ou se continuam ajustando suavemente os juros básicos. Se a moderação prevalecer, haverá mais um aumento de 0,75 ponto porcentual e a taxa subirá para 5%. Se decidirem dar um tranco para conter a alta de preços, a taxa básica poderá aumentar 1 ponto.

Se a solução mais branda for novamente escolhida, a inflação passará bem acima da meta de 3,75%, neste ano, e poderá superar o limite de tolerância, de 5,25%. No mercado, as projeções apontam nova ultrapassagem do centro da meta (3,5%) em 2022. Na última pesquisa Focus, divulgada na segunda-feira, dia 5, o número estimado para o próximo ano ficou em 3,77%.

Se o Copom eleger a política mais dura, a alta de preços poderá ser freada, embora com alguma defasagem. Mas juros mais altos poderão prejudicar a reativação dos negócios e, além disso, encarecer o financiamento do Tesouro, afetando a gestão das contas do governo e inflando a dívida pública. Se houver risco maior para as finanças oficiais, o mercado poderá reagir com rapidez, tornando ainda mais difícil a captação de recursos pelo governo.

O receituário mais suave poderá evitar maiores problemas fiscais e ser mais favorável à sustentação dos negócios. Mas será preciso muito mais que isso para alimentar a atividade econômica no próximo ano. Em 2021 o Produto Interno Bruto (PIB) poderá crescer entre 5% e 5,5%, segundo as projeções correntes no mercado. Para 2022, no entanto, o crescimento estimado caiu em quatro semanas de 2,31% para 2,1%.

O entusiasmo exibido pelos economistas fora do governo tem, portanto, limites estreitos: aponta uma razoável retomada neste ano, mas fica nisso. O País poderá compensar com pequena folga o tombo de 4,1% sofrido em 2020, mas em seguida voltará ao padrão medíocre dos últimos anos – ou abaixo de medíocre, quando comparado com o desempenho normal de outros emergentes.

A inflação, o desemprego acima dos padrões globais e o baixo potencial de crescimento predominam entre as desvantagens brasileiras. Mas a esses fatores é preciso juntar outros dados negativos. A política antiambiental implantada em 2019 prejudica a imagem do agronegócio, embora a produção relevante ocorra quase toda em áreas bem preservadas. Essa avaliação é injusta, mas alimentada pelo comportamento desastroso do presidente da República, figura criticada publicamente até no Festival de Cannes.

A questão dos juros é só um detalhe num quadro muito complicado, mas um detalhe especialmente importante. Não há solução simples e sem perigo. Em qualquer hipótese, a evolução dos preços continuará refletindo problemas fora do controle governamental, como a escassez de chuvas e a cotação internacional do petróleo. A inflação também poderá ser intensificada pelas tensões políticas e pelas incertezas derivadas da gestão fiscal e das palavras e ações do presidente Jair Bolsonaro, acuado por investigações e suspeitas e empenhado, até mais do que antes, em cuidar da reeleição. Mas o Copom tem sido, regularmente, o núcleo mais competente e confiável da administração federal nos últimos dois anos e meio. A sensatez – pelo menos isso se pode esperar – deverá continuar presente em sua próxima deliberação.

 

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