Inflação de muitas caras

Custos sobem para famílias e indústrias e impõem desafio incomum ao governo.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2021 | 03h00

Preços em alta seguem assombrando consumidores, principalmente os mais pobres, e empresários industriais de todos os portes. Custo de vida e custo de produção têm sido fortemente pressionados pelas cotações de produtos básicos, pelo dólar valorizado e por desarranjos ocasionados pela pandemia de covid-19. Famílias de baixa renda reduziram as compras e comprimiram severamente seus padrões de consumo. Com os custos inflados, empresas têm pouco espaço, como informa reportagem do Estado, para absorver aumentos e reduzir a margem de lucro. Tudo ainda ficará pior se o governo assustar o mercado, os juros subirem e o setor público tiver de enfrentar um ajuste mais drástico.

Com desemprego elevado e consumidor sem dinheiro, as empresas só têm repassado ao varejo uma pequena parte de seu aumento de custos. Ainda assim, os preços finais têm subido perigosamente. A prévia da inflação de janeiro, de 0,78%, foi a maior para o mês desde 2016, quando a taxa bateu em 0,92%, como apontou o IPCA-15, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2020 os preços da indústria subiram 19,40%, na maior alta anual desde 2014.

O contraste entre custos de produção e preços finais aparece também nos dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Os preços ao consumidor aumentaram 4,70% nos 12 meses até janeiro, segundo o IGP-M, o Índice Geral de Preços – Mercado. No mesmo período a alta dos preços ao produtor chegou a 35,40%, impulsionada principalmente pelo custo das matérias-primas brutas (+68,91%), com destaque para os alimentos e outros produtos de origem agropecuária.

Em janeiro, os preços ao produtor aumentaram 1,09% e aqueles pagos pelo consumidor, 0,41%, puxados pelo custo da alimentação (+1,52%). Os preços por atacado (ou ao produtor) são o maior componente do IGP-M, com peso de 60%. Os preços ao consumidor correspondem a 30% e os custos da construção, a 10%. O IGP-M avançou 2,58% em janeiro e 25,71% em 12 meses.

Embora tenham superado a meta oficial em 2020, os indicadores da inflação ao consumidor, em suas medidas mais amplas, de certa forma disfarçam os piores efeitos da alta de preços, suportados pelas pessoas mais pobres. Os diferentes efeitos são mostrados em relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Em 2020, a inflação das famílias de renda muito baixa (abaixo de R$ 900 por mês) atingiu 6,22% (4,42% em 2019). A das famílias do andar seguinte (renda mensal entre R$ 900 e R$ 1.350) atingiu 5,43%. No topo, onde a renda supera R$ 9.000 por mês, a alta de preços ficou em 2,74%, abaixo da registrada um ano antes (4,18%).

Para os mais pobres, inflação mais alta no ano e com aumento em 12 meses; para o pessoal da cobertura, inflação mais baixa no ano e com redução no período. O peso dos gastos com alimentação explica boa parte da diferença. Os analistas do Ipea consideram seis faixas de renda.

A situação das famílias pobres foi agravada pela redução e, depois, pela extinção do auxílio emergencial. Sem medidas para socorrer esse grupo, a manutenção da retomada será muito complicada. A equipe econômica, ainda sem um claro roteiro de ação, continua sem resposta para o problema da sustentação do consumo.

Do outro lado do quadro estão as indústrias pressionadas pelos custos altos e, por enquanto, sem perspectiva de acomodação. As empresas têm enfrentado elevação de custos internos, de insumos importados e do frete internacional. Vários setores importam componentes. Essa dependência é bem visível na indústria eletroeletrônica, mas também é considerável em outros segmentos. Empresas podem mexer nos custos, mas, no limite, a saída será tentar o repasse. Problemas do lado do consumidor ou do lado da indústria bastariam, separadamente, para complicar a retomada. Se quiser agir, o governo terá de considerar problemas dos dois lados, ao mesmo tempo, além das próprias limitações. Será uma excelente oportunidade para as autoridades mostrarem trabalho e competência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.