Inflação dos EUA pode doer aqui

Alta de juros nos EUA para conter os preços limitará escolhas políticas do Copom e imporá custos à nossa economia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2022 | 03h00

Já pressionado pela inflação local, pelo desemprego elevado e pelos juros altos, o trabalhador brasileiro ainda poderá pagar uma parte da conta da inflação americana, se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) endurecer o jogo para segurar os preços. Crédito mais caro na maior potência econômica repercute em outros países, dificultando financiamentos, afetando o câmbio e minando a atividade econômica e o emprego. O aperto poderá começar em março com um aumento dos juros básicos, atualmente na faixa de 0 a 0,25% ao ano. Já se fala, no mercado financeiro, numa alta de 0,5 ponto porcentual, seguida de aumentos menores até o fim do ano. Mesmo um início mais suave, com ajuste de 0,25 ponto, poderá, no entanto, afetar a economia brasileira, já debilitada.

Que o Fed terá de apertar sua política é indiscutível, diante do agravamento do surto inflacionário. Com alta de 0,6% em janeiro, os preços ao consumidor atingiram um patamar 7,5% superior ao de um ano antes, na maior variação desde fevereiro de 1982. Não dá mais, dizem analistas e empresários no mercado americano, para manter a política frouxa e expansionista dos últimos anos.

Com juros muito baixos e muito dinheiro posto em circulação, essa política facilitou a recuperação econômica, depois da onda inicial da pandemia, mas com uma disparada de preços como efeito colateral. A autoridade monetária já havia prometido uma política menos expansionista, mas os novos números da inflação talvez precipitem uma alteração mais severa.

Qualquer política mais dura nos Estados Unidos poderá limitar as escolhas do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC), já confrontado com desajustes muito graves. A inflação mensal diminuiu de 0,73% em dezembro para 0,54% no mês seguinte, mas essa taxa foi a mais alta para janeiro desde 2016, quando chegou a 1,27%. A alta de preços em 12 meses passou de 10,06% no fim de 2021 para 10,38%.

Dificilmente, segundo se estima no mercado, a alta dos preços ao consumidor ficará neste ano abaixo de 5%, o teto da meta oficial, centrada em 3,5%. Hoje parece mais provável um resultado acima do limite de tolerância, como no ano passado. Os juros básicos chegaram a 10,75%. No mercado, já se especulou sobre uma taxa de 12,25% nos próximos meses. A próxima decisão do Fed poderá reforçar essa aposta e estimular, talvez, projeções mais pessimistas. De toda forma, os juros continuarão a subir no Brasil, mesmo com acréscimos menores que o de 1,5 ponto porcentual, usado nos dois últimos ajustes da taxa básica.

Encarecendo as operações do Tesouro, juros maiores tornarão mais complicada a gestão das finanças federais, dificultarão os negócios e imporão mais entraves ao crescimento econômico, por enquanto estimado na faixa de -0,5% a +0,5% em 2022. É muito difícil imaginar uma alternativa aos juros altos, porque o BC enfrenta a inflação, enquanto o presidente da República, seus ministros “políticos” e o Centrão se unem na festa da gastança e da irresponsabilidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.