Inflação imprevista pede mais arrocho

Alta de preços persistente e deterioração do cenário requerem aperto monetário forte e prolongado, diz a ata do Copom

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2022 | 03h00

Para conter uma inflação maior e mais persistente do que se previa, o aperto monetário, com dinheiro caro e crédito escasso, também deverá prolongar-se por mais tempo, segundo informa o Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC). Com seu efeito contracionista, o arrocho deverá impactar a economia mais fortemente no segundo semestre, estima o comitê, e a partir daí a alta de preços deverá perder impulso. O objetivo é levar a inflação, projetada em 4% no próximo ano, para o centro da meta, fixado em 3,25% para 2023 e 3% em 2024. Essas informações aparecem na ata da última reunião do Copom, encerrada na quarta-feira da semana passada, quando a taxa básica de juros foi elevada de 11,75% para 13,25% ao ano. O texto só menciona o ano-calendário de 2023 quando se refere ao “horizonte relevante” da política monetária.

Em nova alta, prevista para o começo de agosto, a taxa básica deverá atingir 13,50% ou 13,75%, segundo indicação do Copom. Ao descrever as pressões inflacionárias externas e internas, a ata, divulgada nesta terça-feira, é bem mais sombria que a nota publicada logo depois da reunião, na quarta-feira anterior. O ambiente externo continuou em deterioração, com revisão para baixo do crescimento previsto para as grandes economias, políticas monetárias mais contracionistas e piora das condições financeiras. Internamente, o crescimento econômico tem superado as previsões, mas a inflação ao consumidor continua elevada e mais persistente do que se esperava. Contudo, os dados da atividade recente “ainda refletem, majoritariamente”, a normalização depois da pandemia e também “o estímulo fiscal transitório efetuado no primeiro semestre”. Houve, além disso, a utilização de parte da poupança acumulada pelas famílias na fase de maior restrição.

Esgotados esses efeitos, a atividade perderá impulso nos próximos trimestres, “quando os impactos defasados da política monetária se fizerem mais presentes”. Também está pressuposta, naturalmente, alguma contenção da alta de preços, como consequência da alta de juros.

A defasagem normal dos efeitos da política monetária explica parcialmente a forte alta de preços nos últimos meses. Mas a ata assinala também uma “deterioração tanto na dinâmica inflacionária de curto prazo quanto em suas projeções mais longas, ainda que o cenário esteja cercado de incerteza e volatilidade acima do usual”. Em outras palavras, o desajuste dos preços ainda se agravou, enquanto o Copom apertava sua política. Sobra da leitura, portanto, uma dúvida importante. Dada essa deterioração, será mesmo possível esperar um efeito positivo da política anti-inflacionária neste semestre?

Mesmo com algum efeito positivo do arrocho, pressões inflacionárias ainda serão provavelmente sensíveis em 2023. Quem estiver no Executivo quase certamente será forçado a enfrentar uma combinação tóxica de inflação intensa, juros altos, desemprego ainda elevado (apesar de alguma redução em 2022) e contas públicas contaminadas pelo jogo eleitoral deste ano. 

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