Inflação menor, mas ainda cruel

Custo de vida subiu menos em maio, mas sobre patamar muito alto e num cenário de desemprego alto e empobrecimento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2022 | 03h00

Quem anda ansioso por uma notícia positiva pode até festejar a inflação de maio, 0,47%, a menor em 13 meses. Os mais entusiasmados podem até celebrar a redução da taxa acumulada em 12 meses, de 12,13% em abril para 11,78% no mês seguinte. Mas é prudente comemorar com moderação. Há um surto inflacionário global, mas a situação é pior no Brasil do que na maior parte do planeta. O desemprego brasileiro é um dos maiores, a distribuição de renda é muito desigual e milhões de famílias têm dificuldade até para comprar gás de cozinha. Uma pesquisa recente apontou 33 milhões de pessoas com fome. Mas o quadro geral, com 125 milhões sujeitos a algum grau de insegurança alimentar, é ainda mais contrastante com os padrões das economias emergentes e desenvolvidas.

Além desses dados, é preciso levar em conta um fato nem sempre destacado pelos analistas. A inflação mensal medida pelo IBGE diminuiu de 1,06% para 0,47% entre abril e maio, mas sem anular os aumentos acumulados no ano ou em períodos mais longos.

Nos 12 meses até maio o custo da alimentação subiu 13,51%. Os combustíveis domésticos, incluído o gás, encareceram 29,56%. As tarifas de transporte público subiram 17,43%. Os preços dos produtos farmacêuticos aumentaram 13,41%. Os combustíveis de veículos ficaram 29,12% mais caros. Foi uma alta enorme, de fato, mas muito mais importante, para a maioria dos brasileiros, foi o encarecimento da comida, do gás, do transporte público e dos medicamentos. Enquanto isso, o presidente da República parece ter notado apenas a variação dos custos de gasolina e do diesel.

Para os desempregados, subempregados e outras pessoas mal situadas no mercado de trabalho, a alta do custo de vida tem sido especialmente cruel. Não há, no Brasil, redes de segurança social para garantir condições minimamente decentes às pessoas em dificuldades. O Auxílio Brasil, sucessor eleitoreiro do velho programa Bolsa Família, funciona mal e tem sido incapaz de absorver o enorme número de novos candidatos à ajuda.

O aumento da insegurança alimentar – fome, nos casos mais graves – combina com as condições de trabalho dominantes nos últimos anos. Os desempregados eram 11,3 milhões, 10,5% da força de trabalho, no trimestre móvel encerrado em abril. Os desalentados eram 4,5 milhões e os subocupados por insuficiência de horas de trabalho, 6,6 milhões. Somados, esses três grupos compunham, nesse período, 22,4 milhões de trabalhadores em péssima situação, sem condição de sustentar ou de contribuir para o sustento das famílias.

O crescimento da economia tem sido insuficiente para atenuar de forma significativa essas dificuldades. O aumento dos negócios tem sido puxado pelos serviços, conhecidos como geradores de postos de trabalho, mas nem isso tem atenuado os problemas. Geradora de empregos decentes, a indústria continua travada.

Com a inflação ainda alta, crédito caro e economia sem rumo, o desemprego, na melhor hipótese, diminuirá lentamente até o fim do ano, e o consumo familiar, mesmo com algum aumento, continuará muito modesto.

 

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