Inflação recorde e o custo da incerteza

Contra a disparada dos preços, que em março atingiu o maior índice desde 1994, resta subir os juros, o que tornará muito ruim a herança deixada para o próximo governo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 03h00

Mais um recorde sinistro foi batido na administração do presidente Jair Bolsonaro, com a inflação atingindo em março a taxa de 1,62%, a maior para o mês desde 1994, quando o governo cuidava da implantação do Plano Real.

A alta de preços ao consumidor chegou a 11,30% em 12 meses, mantendo o Brasil como um dos países com maior desajuste no custo de vida. Aumentos anuais superiores a 7% têm ocorrido em poucas economias capitalistas, embora todo o mundo tenha sido afetado, recentemente, por uma grande onda inflacionária. Os dados de março mostram o forte impacto do custo dos combustíveis nos preços do transporte e de alimentos, fenômeno observável também no mercado internacional. Mas seria um erro menosprezar dois fatos: a inflação brasileira é amplamente difusa e fora dos padrões globais há muito tempo.

Em março, houve alta de preços em oito dos nove grupos de bens e serviços cobertos pela pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, em cinco grupos a elevação foi maior que no mês anterior. Segundo avaliação recente do Banco Central (BC), a inflação deve continuar em alta pelo menos até abril e em seguida arrefecer. Por enquanto, a primeira parte da previsão está sendo confirmada. Em outras condições talvez se pudesse apostar com razoável segurança na confirmação da segunda. Mas seria uma aposta arriscada, tanto pela instabilidade internacional quanto pela insegurança gerada em Brasília, principalmente no Palácio do Planalto.

Uma rara novidade positiva, na área dos preços, tem ocorrido no mercado cambial. Com juros muito altos e ativos baratos, o Brasil tem atraído um bom volume de investimentos financeiros. Graças a isso, o dólar está mais barato do que na virada do ano. A cotação tem oscilado, naturalmente, mas sem retornar aos níveis observados até há poucos meses. Ficou para trás, pelo menos por algum tempo, o forte efeito inflacionário do câmbio. Mas dois fatores poderão mudar esse quadro.

O câmbio poderá ser afetado pela evolução dos juros no mundo rico, especialmente no mercado americano. Forçado a cuidar de uma inflação muito alta, com taxa anual de 7,9% em fevereiro, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) poderá elevar a taxa básica mais velozmente nos próximos meses. Se isso ocorrer, haverá sensíveis efeitos nos fluxos internacionais de dinheiro, e o dólar poderá valorizar-se, de novo, em relação ao real. Nesse caso, o câmbio voltará a alimentar a inflação brasileira, encarecendo os produtos importados e, em seguida, contaminando os demais preços.

O segundo fator é político. Dedicado à disputa eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro ficará ainda mais concentrado nos objetivos pessoais e menos atento, se isso for possível, aos efeitos econômicos de suas atitudes e de suas decisões. Quanto maior a agitação política e quanto menor a segurança quanto aos seus desdobramentos, maior será a incerteza nos mercados. Mais provável, portanto, será a busca de segurança financeira no exterior, com aplicações fora do Brasil e consequentes movimentações na cotação do dólar. O cenário é bem conhecido.

Pelo menos um fator de atração de dólares deve permanecer nos próximos meses e, quase certamente, no próximo ano. Os juros permanecerão, no País, bem acima dos níveis observados comumente na maior parte do mundo capitalista. A taxa deve passar de 11,75% para 12,75% em maio, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), principal órgão político do BC. O mercado tem previsto taxas menores a partir de 2023, mas qualquer estimativa é muito insegura, diante das incertezas internacionais e, principalmente, das condições brasileiras.

Juros altos podem ser inevitáveis, neste ano, e benéficos no médio e no longo prazos, mas têm sido e serão um forte entrave à atividade econômica e um custo adicional para o Tesouro. A dívida pública brasileira já é bem maior que a de outros países de renda média, e será parte, também, da péssima herança prevista para a próxima administração.

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