Inflação recua, mas ainda assusta

Surto inflacionário pode ter arrefecido, mas pode ser realimentado pelas jogadas políticas de Brasília

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2022 | 03h00

Em novo recuo, a inflação ficou em 0,54% em janeiro, depois de ter batido em 0,73% no mês anterior. Com isso, o ritmo de elevação dos preços de bens e serviços consumidos pelas famílias diminuiu pelo terceiro mês consecutivo. Essa perda de impulso pode ser um sinal de esgotamento, ou de sensível moderação, do surto inflacionário iniciado em 2021, quando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 10,06%. Se os próximos dados confirmarem essa tendência, talvez 2022 termine sem um novo estouro do teto da meta, fixado em 5% para este ano. Por enquanto, a projeção do mercado, de 5,44%, ainda supera o limite de tolerância e ultrapassa amplamente o centro do alvo, de 3,5%. Mas qualquer otimismo pode ser precipitado, no começo de um ano provavelmente marcado, em Brasília, por muita disputa política, muitas jogadas eleitorais, muito populismo e pouca ou nenhuma preocupação com a saúde das contas públicas.

Os novos números ficam menos animadores quando examinados de perto. A inflação de janeiro é pouco mais que o dobro da contabilizada um ano antes, 0,25%. Além disso, a taxa de 0,54% foi a maior desde janeiro de 2016, quando a variação atingiu 1,27%. A alta de preços em 12 meses chegou a 10,38%, superando a do ano passado, de 10,06%. O esperado recuo na direção da meta, ou pelo menos do teto da meta, começa, portanto, em um nível pouco mais alto que o de dezembro.

Mas há detalhes mais sombrios. Enquanto o índice geral declinou, o item alimentação e bebidas, com alta de 1,11%, teve uma variação maior que a de dezembro (0,84%). Por ser componente de grande peso no orçamento familiar, a alta desse item teve impacto de 0,23 ponto no resultado geral (0,54%) – quase metade da variação mensal do IPCA.

O custo da comida tem peso tanto maior quanto mais baixa a renda familiar. Além disso, o orçamento dos pobres é pouco flexível, porque pouquíssimos itens são dispensáveis. Mas esses detalhes compõem só uma parte do drama. Sem a inflação, os ganhos das famílias já teriam sido severamente cortados, nos últimos dois anos, pelas más condições do mercado de trabalho.

Com dificuldade para manter os gastos essenciais, os brasileiros têm sido incapazes de ampliar de forma significativa o consumo. De forma descontínua, em metade do ano passado foram negativas as taxas mensais de variação das vendas do varejo. Em dezembro, o volume vendido foi 0,1% menor que em novembro e 2,9% inferior ao de um ano antes. No ano, as vendas do comércio varejista foram 1,4% superiores às de 2020, com variação muito parecida com as de 2019 e 2020.

Se os ganhos continuarem comprimidos, dificilmente os consumidores poderão gastar muito mais do que em 2021. O crescimento econômico permanecerá travado, porque o consumo das famílias é o principal motor da produção de bens industriais e de serviços. Com juros altos, o recurso ao crédito será inviável para a maioria dos brasileiros. Finalmente, quanto mais incertezas o presidente e seus aliados criarem, menor será o impulso para a economia avançar.

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