Inflação sem surto

Apesar da corrida no início do isolamento e de um repique nos preços dos alimentos, a inflação ficou bem comportada em março

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 03h00

Pelo menos a inflação ficou bem comportada em março, apesar de um repique nos preços dos alimentos, o item de maior peso para as famílias de baixa renda. Só a partir do mês passado o dia a dia dos brasileiros foi de fato marcado pela pandemia. Com o susto inicial e a perspectiva de isolamento social, houve alguma corrida aos supermercados e às farmácias. Uns poucos produtos sumiram, caso do álcool em gel, e houve remarcações. Mas o balanço final desmentiu os pessimistas. A inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) desacelerou de 0,25% em fevereiro para 0,07% em março. Foi a menor taxa para esse mês desde a implantação do Plano Real em 1994. A alta acumulada ficou em 0,53% no ano e em 3,30% em 12 meses.

O desemprego elevado, a expectativa de perda de renda e as incertezas quanto à duração e aos efeitos da pandemia aconselham cautela aos consumidores. Produtores e comerciantes continuam sem conseguir repassar aumentos de custos aos compradores finais. A alta do dólar, uma das principais notícias no dia a dia do mundo financeiro, pressionou os preços por atacado, mas sem efeito sensível no custo da cesta de consumo.

De toda forma, a alta dos preços de alimentação e bebidas foi o principal componente da inflação de março. A variação desse item passou de 0,11% em fevereiro para 1,13% no mês seguinte, contribuindo com 0,22 ponto para a formação do resultado geral. Esse impacto foi mais que compensado pela variação negativa dos preços de artigos de residência, transportes e despesas pessoais. Graças a isso, a variação geral do IPCA ficou em 0,07%.

Sobrou, no entanto, um desconforto adicional para os mais pobres. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) aumentou 0,18%, puxado pela alta de 1,12% do custo da alimentação. O quadro, aqui, é mais delicado, porque esse indicador é baseado na cesta de consumo das famílias com renda mensal de 1 a 5 salários mínimos (no caso do IPCA, entre 1 e 40). O custo da alimentação tem mais peso no orçamento das famílias de renda mais baixa e, portanto, maior influência na sua qualidade de vida. Além disso, essas pessoas têm quase nenhuma flexibilidade para recompor os gastos diante de uma variação de preços.

Parte importante das medidas anunciadas nas últimas semanas foi concebida para proteger os trabalhadores – formais e informais – de renda baixa. A ação poderia ter sido mais pronta. A equipe econômica demorou a indicar os procedimentos e datas para inscrição no programa e para acesso à ajuda mensal de R$ 600.

Além disso, parte dos beneficiários nunca teve conta bancária. Em princípio, essas pessoas também poderão receber o dinheiro, mas em condições mais complicadas. Sobra, enfim, uma parcela de analfabetos e semianalfabetos, com dificuldades muito maiores para entrar no processo. As pessoas mais necessitadas estão, portanto, entre aquelas menos preparadas para acessar o benefício e mesmo para ser localizadas pelo governo. Mas o movimento oficial de ajuda, enfim, começou, e os mais pobres entraram na lista de prioridades oficiais.

A condição dos preços poderia ter piorado, em abril, se os mercados tivessem levado a sério o vídeo fake sobre desabastecimento divulgado pelo presidente da República no dia 1.º. Mas o efeito foi nulo, até porque a ministra da Agricultura cuidou de esclarecer o assunto. Por enquanto, o quadro parece continuar sem grande mudança.

Com inflação moderada e bem abaixo da meta oficial de 4% ao ano, o Banco Central (BC) continua com ampla liberdade para manejar os juros e para estimular, de várias formas, o aumento do crédito. Alguns analistas falam mais diretamente de espaço para uma folgada expansão monetária. O risco de inflação, afirmam, é muito pequeno por causa da baixa demanda. Qualquer auxílio às empresas e às famílias, agora, dificilmente resultará, segundo argumentam, em algo mais que a mera sobrevivência das firmas e um mínimo indispensável de consumo. Não está claro, no entanto, se o BC recorrerá a novo corte de juros.

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