Inflação versus consumo e PIB

Preços em alta, juros elevados e baixo potencial de crescimento são legados previstos para o próximo mandato

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 03h00

Motor principal da economia, o consumo deve ser de novo prejudicado, em 2022, pela corrosão da renda familiar, o pior efeito da inflação acelerada. Neste ano e no próximo, a alta dos preços ao consumidor, segundo projeções do mercado, vai superar o teto da meta, isto é, o limite oficial de tolerância. Por mais 12 meses, pelo menos, sobreviver será um duríssimo desafio, no País, para a maior parte dos trabalhadores e suas famílias. As estimativas indicam inflação de 10,04% em 2021 e de 5,03% no ano seguinte. As metas em vigor são 3,75% e 3,50%, com limites superiores de 5,25% e 5%. Em 2023 os preços deverão subir, segundo as expectativas, 3,40% – abaixo do teto de 4,75%, mas acima do centro do alvo, 3,25%. No início do novo período presidencial, o País continuará pagando, em todos os sentidos, pelos erros e desmandos cometidos no atual mandato. Os dados são da pesquisa Focus, publicada semanalmente pelo Banco Central (BC).

Diretores do BC prometem manter o esforço, por meio de juros altos, para levar a inflação à meta. Não definem oficialmente um prazo, mas indicam o próximo biênio como “horizonte relevante”. Este ano termina com juros básicos de 9,25%. A taxa prevista para o fim de 2022 chegou a 11,50%. A taxa poderá cair para 8% em 2023, mas ainda será muito alta e continuará dificultando o crédito para a maior parte dos consumidores e das empresas.

Com a renda familiar comida pela inflação e o crédito muito caro, os negócios serão inevitavelmente prejudicados. As projeções dos juros e da alta de preços são compatíveis com uma economia emperrada. No mercado, a mediana das estimativas aponta expansão de 0,50% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 e de 1,85% em 2023. Todas essas projeções têm diminuído sensivelmente ao longo dos meses. Algumas chegam a manter-se por umas poucas semanas.

Não há como prever grande melhora econômica nos próximos anos. A insegurança quanto às contas públicas tem peso importante na formação das expectativas. Essas contas devem ficar amplamente sujeitas, em 2022, aos interesses eleitorais do presidente Jair Bolsonaro e às demandas de seus apoiadores do Centrão. Incertezas fiscais favorecem o envio de dólares para fora. Isso resulta em supervalorização da moeda americana diante do real, com efeitos sobre os preços de muitas mercadorias. Ambiente inseguro desestimula investimentos de longo prazo, limitando as possibilidades de aumento do PIB. O potencial de crescimento, já muito limitado nos últimos dez anos, está hoje estimado em torno de 2% ao ano, mas há quem considere otimista essa avaliação.

O presidente Jair Bolsonaro completará três anos de mandato, em poucos dias, sem ter contribuído para ampliar o dinamismo e as possibilidades de crescimento da economia brasileira. Nada fez para reverter o enfraquecimento da indústria, iniciado no período petista, nem para aumentar a inserção do País no sistema global ou para impulsionar a educação e a ciência. Mas tem cuidado bem dos seus próximos e do Centrão.

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