Informação e autonomia

Não há liberdade – não há exercício livre da cidadania – onde vige a ignorância ou onde as 'fake news' ditam o debate público.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2019 | 03h00

Pesquisa realizada pelo Ipsos em 27 países revelou que o Brasil é o quarto país do mundo que mais confia em jornais e revistas. Dos entrevistados, 65% disseram confiar na imprensa e 23% afirmaram confiar relativamente. Apenas 8% disseram não ter confiança no conteúdo dos jornais e revistas. A média global de confiança na imprensa é de 47%.

No Brasil, a confiança em sites e plataformas online é menor do que a confiança na imprensa. Entre os entrevistados, 58% disseram confiar no conteúdo disponível na internet. Ao mesmo tempo, 68% dos brasileiros têm a percepção de que as fake news prevalecem na internet. Nesse tópico, a média global é de 62%.

Ainda que os dados relativos à confiança possam variar razoavelmente de pesquisa para pesquisa, a depender da metodologia adotada, os números revelados pelo Ipsos são claramente positivos, indicando que o brasileiro sabe distinguir entre o que é notícia de fato – apurada, checada e revista – e aquilo que, mesmo tendo uma aparência de notícia, não é confiável, por não ter a apuração, a checagem e a seriedade do trabalho jornalístico. A capacidade de fazer essa distinção é de fundamental importância para uma sociedade que se pretenda autônoma.

Nos tempos atuais, o cerceamento das liberdades individuais não decorre apenas de uma atuação abusiva por parte do Estado ou dos poderosos de plantão. Não há liberdade – não há exercício livre da cidadania – onde vige a ignorância ou onde as fake news ditam o debate público. O bom funcionamento da democracia baseia-se na capacidade real de os cidadãos se informarem bem, permitindo, assim, que tomem suas decisões de forma livre e responsável.

Por isso, são tão decisivas para um Estado Democrático de Direito as liberdades de pensamento, de expressão e de imprensa. Esse ambiente de liberdade é condição para que cada cidadão possa ter acesso a uma variedade de fontes de informação e escolher aquelas que lhe pareçam mais confiáveis.

Nesse contexto, vale lembrar também a importância de uma educação de qualidade, que forme jovens que, bem alfabetizados, sejam capazes de ler, entender e interpretar os mais variados conteúdos, e não estejam reféns dos sofismas, manipulações e reducionismos, tão frequentes no mundo de hoje. Só com esse pluralismo de fontes e essa capacidade crítica é possível uma atuação cívica e política realmente livre.

Além de permitir que cada um forme suas convicções e faça suas escolhas políticas com autonomia, a informação confiável é pressuposto para a troca de ideias e a discussão de propostas, tão próprias de uma democracia. Sem fatos minimamente comprováveis, é difícil, por exemplo, que o debate político possa produzir consensos e gerar soluções, já que faltaria a base comum para o diálogo. As notícias, checadas e apuradas, são elementos que contribuem para um debate público realista e respeitoso.

Os números relativos à confiança da população nos jornais e revistas são também estímulo para que a imprensa não abdique de seu papel dentro de uma sociedade democrática. A confiança recebida aumenta a responsabilidade de realizar um trabalho jornalístico de qualidade, que não abra mão de apurar conscienciosamente o que relata e, ao mesmo tempo, não se omita de alertar e de denunciar o que não se coaduna com o interesse público e com o Estado Democrático de Direito. Nessa tarefa, não é raro que a imprensa desagrade ou contrarie quem está no poder. Mas é precisamente essa independência que dá sentido ao trabalho jornalístico, em sua contínua busca pela verdade dos fatos.

A confiança na imprensa não é, portanto, apenas uma boa notícia para a imprensa. Ela é sinal de uma sociedade que, consciente do seu protagonismo numa democracia, não se conforma com versões oficiais ou relatos superficiais. Ela almeja por informação segura que, indo além das aparências, contribua para uma autonomia responsavelmente exercida.

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