Iniciativa inteligente

Ao abrir vagas para premiados e participantes de competições do conhecimento, a USP merece aplauso

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2019 | 03h00

Numa iniciativa que induz a rede pública de ensino médio a melhorar sua qualidade ao mesmo tempo que estimula os alunos a estudar, a Universidade de São Paulo (USP) informou que oferecerá, no primeiro semestre de 2020, 113 vagas em cursos de graduação para participantes e para medalhistas de competições de conhecimento, como as olimpíadas de matemática, física, química e biologia. 

As vagas ofertadas variam de uma a três em 55 cursos de graduação. Pelas regras da USP, os candidatos devem ter participado ou ter sido premiados há dois anos, no máximo. Ao todo, a instituição levará em consideração 20 competições – 9 são brasileiras e 11 internacionais. Pelos critérios de pontuação, as competições internacionais valerão mais do que o dobro das competições nacionais. E as medalhas de ouro valerão mais do que as de prata e as de bronze. 

Iniciativas como essa da USP são comuns nas mais prestigiosas universidade do mundo. No Brasil, essa experiência começou a ser posta em prática pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em dezembro de 2018, ela anunciou a destinação de 90 vagas para ingresso exclusivo de medalhistas em seus cursos de graduação. Além dessa medida, a Unicamp também colocou em prática uma experiência inspirada na Universidade da Califórnia, em Berkeley, selecionando dois alunos da 3.ª série do ensino médio de cada uma das escolas públicas de Campinas, oferecendo-lhes um curso de formação geral, sob orientação de um professor ou de um pesquisador. Ao entrar em contato com conhecimentos básicos do mundo natural e social, os alunos selecionados desenvolvem raciocínio lógico, habilidades técnicas e aprendem a refletir sobre problemas reais, usando conceitos e métodos científicos.

No caso das competições de conhecimento, o objetivo é mostrar o lado prático do que é ensinado em sala de aula, incentivar a curiosidade das novas gerações a respeito do conteúdo das ciências exatas e biomédica, identificar talentos e atrair os melhores alunos para as careiras de cientista e pesquisador. O formato desses eventos encoraja uma competição saudável, que motiva os estudantes, melhorando seu desempenho. Na maioria das vezes, os vencedores dessas competições são excelentes alunos de graduação. Quando concluem o ensino superior, obtêm com facilidade vagas nos programas de pós-graduação das universidades públicas e em cursos de doutorado em universidades americanas e europeias. 

Atualmente, no Brasil, os alunos do ensino médio já podem participar de olimpíadas de conhecimento nas áreas de informática, biologia, química, matemática, física, biologia, neurociências, astronomia, saúde, meio ambiente e agropecuária. Uma das competições mais importantes é a Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas, que foi criada em 2005 pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Em 2016, ela contou com 17 milhões de competidores e um número recorde de escolas inscritas, tendo concedido 500 medalhas de ouro, 1,5 mil medalhas de prata, 4,5 mil medalhas de bronze e 46,2 mil menções honrosas, além de premiar os professores que mais se destacaram.

Diante da multiplicação dessas competições, dirigentes escolares vêm propondo ao governo federal sua conversão num projeto educacional de grande alcance. Mas, por causa da inépcia que tomou conta da área educacional desde a posse do presidente Bolsonaro, nada tem sido feito nesse sentido. Até o Prêmio Professores do Brasil, que previa o reconhecimento de 500 docentes do ensino básico, foi cancelado recentemente, pegando de surpresa entidades parceiras do projeto e frustrando professores das escolas públicas que se forçaram para ensinar melhor. 

Ao abrir vagas para premiados e participantes de competições do conhecimento, a USP merece aplauso. Mas, infelizmente, iniciativas importantes como essa continuam sendo exceção num país em que o governo está mais preocupado com questões de gênero nas escolas do que em melhorar a eficiência do sistema educacional. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.