Insatisfação consolidada

Pesquisa consolida os sentimentos de desconfiança e decepção de parcela crescente da população brasileira em relação ao desempenho do governo de Jair Bolsonaro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 03h00

Uma nova pesquisa de opinião realizada pelo instituto Datafolha revelou que o porcentual de brasileiros que consideram o governo de Jair Bolsonaro “ruim ou péssimo” cresceu de 33% para 38% em dois meses, entre o início de julho e o final de agosto. O presidente desqualificou as conclusões da pesquisa, como sempre o faz quando contraposto a tudo que não lhe pareça positivo. “Alguém acredita em pesquisa Datafolha? Você acredita em Papai Noel?”, questionou Jair Bolsonaro ao ser indagado sobre os motivos para resultado tão negativo para um governo com oito meses de mandato.

Ocorre que o resultado divulgado pelo Datafolha não é um dado isolado da realidade. O presidente pode ignorá-lo – não convém, mas ele pode – ou dele desdenhar publicamente, mas o fato é que a nova pesquisa vem consolidar os sentimentos de desconfiança e decepção de uma parcela crescente da população brasileira em relação ao desempenho de seu governo. Outros institutos de pesquisa já haviam capturado este estado de espírito.

No início de agosto, pesquisa XP/Ipespe revelou que o porcentual de brasileiros que consideravam o governo de Jair Bolsonaro “ruim ou péssimo” também era de 38%, ante 34% na sondagem anterior. No fim do mês passado, pesquisa CNT/MDA apontou para a mesma tendência de aumento da percepção negativa sobre a qualidade do governo – ou a falta dela. De acordo com esta pesquisa, dobrou o porcentual dos que classificam o governo de Jair Bolsonaro como “ruim ou péssimo” entre fevereiro e agosto, saltando de 19% para 39%, mesmo patamar apurado pelos outros institutos.

A análise conjunta das pesquisas permite concluir que é cada vez maior o número de brasileiros insatisfeitos com o governo de Jair Bolsonaro. A percepção negativa que parcela expressiva da população tem do governo é perfeitamente compatível com o comportamento de um presidente que fez a clara opção por desconsiderar as exigências do cargo.

A continuar se portando dessa forma, vale dizer, como um candidato permanente que olha apenas para um nicho de eleitores, e não como o presidente de todos os brasileiros, Jair Bolsonaro terá de ampliar seu repertório de personagens fantasiosos para justificar o provável aumento da insatisfação em relação a seu governo. Nada indica, porém, que o presidente irá mudar. Ele parece mais adaptado ao conforto efêmero do palanque do que às pesadas responsabilidades do cargo de presidente da República.

A população conhece muito bem os problemas reais que a afligem e clama por soluções. Sabe igualmente reconhecer quando à frente do governo está alguém que não demonstra ter as qualificações necessárias para apresentá-las. É exatamente isso que transparece com clareza solar nos resultados das pesquisas citadas. À medida que o tempo passa, é como se o despreparo de Jair Bolsonaro para a Presidência da República ficasse mais evidente para um número maior de pessoas.

Pesquisas, no entanto, são ilustrativas de um momento da vida nacional e da visão que a sociedade tem sobre ele. Não são vaticínios. O presidente Jair Bolsonaro pode reagir e é precisamente isso que dele se espera.

Se, por um lado, quase 40% da população classificar o governo como “ruim ou péssimo” antes de completado um ano de mandato é um resultado muito negativo – Jair Bolsonaro ultrapassa a soma de Fernando Henrique Cardoso (15%), Lula da Silva (10%) e Dilma Rousseff (11%) aos oito meses de governo, segundo o Datafolha –, por outro, pode-se avaliar que ainda há tempo para que este mesmo governo faça as devidas correções de rumo. Obviamente, isso pressupõe que o presidente Jair Bolsonaro, primeiro, admita que há o que corrigir. Depois, que empreenda todos os esforços necessários para tratar dos problemas que, de fato, demandam atenção presidencial.

O mínimo que se espera é que Bolsonaro governe com a altivez e a responsabilidade que se exige da Presidência da República, deixando as ações de campanha para a época apropriada.

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