Irresponsabilidade diante da crise global

Provocações põem vendas em perigo enquanto despenca o comércio mundial

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2020 | 03h00

O mundo precisa comer, o Brasil tem comida para exportar e isso garantirá dezenas de bilhões de dólares num ano péssimo para a economia mundial – se nenhuma nova bobagem atrapalhar as vendas externas. Bobagens graves já foram cometidas pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, e pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ambos conseguiram criar atritos com a China, maior parceira comercial do País, num momento especialmente ruim em todos os mercados. Já emperrado nos últimos anos, o comércio internacional levará um tombo enorme em 2020, no meio de uma crise muito mais grave que a de 2008-2009. As trocas de mercadorias vão encolher no mínimo 13% e no máximo 32%, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC). Incertezas sobre a duração e os efeitos da pandemia explicam a ampla diferença entre a melhor hipótese e a pior. Mas em qualquer caso a experiência será, como já vem sendo, muito ruim para todos.

“O inevitável declínio no comércio e na atividade produzirá consequências dolorosas para as famílias e para as empresas, somadas ao sofrimento humano causado pela própria doença”, comentou o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo. Nenhuma área do comércio ficará imune. O intercâmbio de serviços foi logo afetado, com a redução das viagens, principalmente de turismo, e grandes perdas para companhias de transporte, hotéis, bares e restaurantes. Para o Brasil, o comércio de mercadorias tem especial importância, porque aí está o sustentáculo de suas contas externas.

Alguns países serão muito afetados pela interrupção das cadeias produtivas. Efeitos já são visíveis, no Brasil, por causa do fornecimento menor de componentes chineses. Mas os países mais atingidos serão aqueles mais integrados nas cadeias globais de produção, como Estados Unidos e China.

A baixa da atividade em vários grandes mercados poderá diminuir a demanda de produtos minerais e do agronegócio. Mas os exportadores de alimentos e de matérias-primas agrícolas, como o Brasil, poderão ser atingidos menos gravemente. Mesmo com menor crescimento em 2020, a China continuará demandando grandes volumes desses produtos e o Brasil estará preparado para responder. No ano passado, as exportações do agronegócio renderam US$ 96,7 bilhões e o mercado chinês garantiu 35% desse faturamento.

No caso do Brasil, as vendas do agronegócio são crucialmente importantes para a sustentação das contas externas. O superávit obtido pelo setor mais que compensa o déficit acumulado em outros segmentos da economia. Graças a isso, tem sido possível fechar a balança comercial, ano após ano, com robustos saldos positivos, suficientes para manter o balanço de pagamentos em razoável segurança. Neste ano, até março, o Brasil acumulou superávit de US$ 5,6 bilhões na conta de mercadorias, segundo números do Ministério da Economia.

De novo, o superávit foi obtido graças ao resultado do agronegócio. Mas o saldo comercial foi 38,4% menor que o de um ano antes. Continuou no azul, mas o declínio, refletindo uma situação particularmente complicada, acende um alerta no setor externo.

Em qualquer circunstância seria tolice e irresponsabilidade pôr em risco as exportações. O erro se torna mais grave quando prejudica ou pode prejudicar a principal viga de sustentação da conta de comércio. O presidente Jair Bolsonaro fez isso mais de uma vez, criando mal-estar com a China e com países muçulmanos, também grandes clientes do agronegócio. Consertos foram providenciados pela ministra da Agricultura e pelo vice-presidente da República, mas problemas foram de novo criados por um filho do presidente e pelo ministro da Educação. Além de gratuitas, as provocações são irresponsáveis e têm um lado esquizofrênico, disse ao Estado o respeitado diplomata Sérgio Amaral, ex-embaixador em Londres, Paris e Washington, ex-ministro da Indústria e do Comércio Exterior. Falta saber se o presidente Bolsonaro percebe a gravidade dos erros e a aberração do comportamento de seu ministro.

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