Isolamento, teoria e prática

Medida tem o apoio majoritário no País, mas muitos cidadãos não a respeitam

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2020 | 03h00

O isolamento social continua sendo percebido pela esmagadora maioria da população como a medida mais eficaz para conter o avanço descontrolado do novo coronavírus e, assim, poupar vidas. A mais recente pesquisa XP/Ipespe, divulgada na terça-feira passada, mostrou que 76% dos entrevistados veem o isolamento como “a melhor forma de prevenir e tentar evitar o aumento da contaminação pelo novo coronavírus”. É muito bom constatar que tantos brasileiros levam em conta as vozes da ciência, da razão, dando o devido valor às orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), de epidemiologistas e de governadores e prefeitos ciosos de suas responsabilidades no enfrentamento da pandemia. Entretanto, não se pode deixar de registrar que o apoio à medida, embora siga bastante forte, apresenta uma tendência de queda. Nas três sondagens realizadas pelo instituto de pesquisa em abril, nos dias 1o, 15 e 22, o isolamento social era defendido por 80%, 79% e 77% dos entrevistados, respectivamente.

Os números da pesquisa XP/Ipespe contrastam com os dados oficiais colhidos por Estados e municípios, que, em geral, apresentam um porcentual de isolamento de suas populações em torno de 50%. Há poucos dias, o Estado realizou seu próprio levantamento com base em dados de geolocalização fornecidos pela empresa Inloco, tendo apurado que o porcentual médio de isolamento no País é de 43,4% (ver editorial Isolamento é vida, publicado em 16/5/2020). Vê-se, portanto, que a maioria dos brasileiros reconhece a importância do isolamento social para evitar o colapso do sistema de saúde e poupar vidas, como atesta a pesquisa XP/Ipespe, mas muitos cidadãos não o praticam no dia a dia. É de indagar por que isso acontece.

Em primeiro lugar, o mercado de trabalho no Brasil é fortemente caracterizado pela informalidade, basta ver os milhões de desassistidos que acorreram às agências da Caixa Econômica Federal para receber o auxílio emergencial. Muita gente acredita na eficácia do isolamento social, gostaria de ficar em casa e se proteger, mas simplesmente não pode porque é nas ruas que está o seu ganha-pão. A bagunça no esquema de pagamento do auxílio emergencial, testemunhada pelo País inteiro, contribuiu para que muitos cidadãos sem dinheiro preferissem a exposição ao vírus nas ruas a ter de submeter seus filhos à fome em casa.

Outra razão para a baixa adesão ao isolamento social é a desarticulação entre os entes federativos, o que transmite uma mensagem confusa à população. A irresponsabilidade criminosa do presidente Jair Bolsonaro, que dia sim e outro também desrespeita as recomendações das autoridades sanitárias e insiste na “volta à normalidade” sem haver segurança para isso, vai na direção diametralmente oposta às medidas adotadas por governadores e prefeitos no sentido de manter o maior número de cidadãos possível em casa. Em quem acreditar, afinal? Os bem informados ficam com as orientações dos governos locais, mas muitas pessoas ficam em dúvida quando é o presidente da República quem emite sinais trocados. O comportamento leviano de Bolsonaro foi objeto de dura crítica do ministro Rogério Schietti, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ao negar provimento a uma ação que pedia o afrouxamento de medidas de combate à pandemia em Pernambuco, o ministro, sem citar o nome do presidente, pontuou que “o País continua (des)governado na área de saúde, já se vão seis dias sem titular na pasta (da Saúde)”. Schietti classificou como “necropolítica” o proceder de Bolsonaro diante da pandemia de covid-19. Não surpreende a reprovação recorde a seu governo (50% “ruim” ou “péssimo”) aferida pela XP/Ipespe neste mês.

Por fim, muitos cidadãos não respeitam o isolamento social porque simplesmente são irresponsáveis sem uma nesga de espírito comunitário, gente que não sabe o que é solidariedade, compaixão ou empatia. A eles interessa passar pela quarentena como quem passa férias, apenas com uma ou outra restrição. Para este grupo, infelizmente, só o contato com a doença poderá provocar um despertar de consciência.

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