Itinerário para a energia limpa

Cada vez mais países se comprometem com a geração de energia limpa

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 03h00

A neutralidade das emissões de carbono até 2050 é considerada crucial para atingir o objetivo do Acordo do Clima de Paris de manter a temperatura global até 2°C (idealmente até 1,5°C) acima dos níveis pré-industriais. O número de países comprometidos com essa meta cresce a cada ano. Mas as emissões de gases de efeito estufa também. Reduzir a lacuna entre retórica e ação exigirá esforços massivos e ampla coordenação entre os governos, o setor energético e os consumidores. A meta é difícil, mas, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), é factível.

Demonstrar essa factibilidade foi o principal objetivo do estudo Rede Zero 2050 - Um Itinerário para o Setor Global de Energia. É o primeiro roteiro abrangente detalhando ações para impulsionar rapidamente a energia limpa e reduzir os combustíveis fósseis, criando, ao mesmo tempo, milhões de empregos e garantindo o desenvolvimento econômico inclusivo. O estudo estabelece mais de 400 marcos indicando o que e quando precisa acontecer para realizar a transição para a energia limpa.

No modelo proposto, os grupos de energia precisariam interromper novos projetos de exploração de petróleo, gás e carvão – embora seja necessário continuar os investimentos nas fontes existentes. “O caminho é estreito, mas é factível”, disse o diretor da AIE, Fatih Birol. “Precisamos de um salto histórico em investimento. O seu cerne deve ser a energia limpa.”

A AIE afirma que as tecnologias necessárias para realizar cortes substantivos nas emissões na próxima década já existem, e as políticas para orientar o seu desenvolvimento já foram testadas. “Metas e licitações competitivas podem possibilitar que as fontes eólicas e solares acelerem a transição do setor elétrico. A redução dos subsídios aos combustíveis fósseis, a precificação do carbono e outras reformas de mercado podem assegurar cifras de preço apropriadas. As políticas deveriam limitar ou desincentivar o uso de certos combustíveis e tecnologias, tais como geradoras por carvão, caldeiras a gás ou os motores convencionais de combustão dos veículos.”

Segundo a AIE, as maiores oportunidades de inovação estão nos setores de baterias avançadas, eletrólise de hidrogênio e captura e armazenamento de carbono. A pesquisa e desenvolvimento nesses campos precisará ser acompanhada de infraestruturas de grande escala, incluindo novos gasodutos para transportar o carbono capturado e sistemas para mover o hidrogênio.

Os custos são expressivos. O investimento anual em energia, atualmente na casa de US$ 2,3 trilhões, precisaria saltar para US$ 5 trilhões em 2030. Mas o modelo projeta com isso um acréscimo de 0,4% por ano ao crescimento do PIB global. A estimativa calcula que a perda de 5 milhões de empregos no setor fóssil seria compensada por 14 milhões de empregos criados até 2030 em atividades como energia limpa, engenharia e indústria. “Tudo isso põe o PIB global, em 2030, 4% acima do que atingiria baseado nas tendências atuais.”

Parece quase bom demais para ser verdade. Talvez seja. Basta lembrar que, em todo o mundo, 785 milhões de pessoas ainda não têm acesso à eletricidade e 2,6 bilhões não têm acesso a soluções limpas para cozinhar. Para garantir que a transição será inclusiva, as nações desenvolvidas precisarão fornecer recursos e tecnologias àquelas em desenvolvimento. Estarão elas dispostas a arcar com esses custos? É possível garantir que elas não elevarão o preço da energia a níveis impraticáveis para os mais pobres, aumentando assim as desigualdades entre as nações ricas e pobres e entre as classes ricas e pobres dentro delas? São perguntas que deverão estar no centro das discussões de fóruns como a COP 26 da Convenção do Clima da ONU em novembro.

A proposta da AIE é ambiciosa, mas insuspeita. Historicamente, a Agência criada em 1974 para garantir o fluxo do fornecimento de petróleo foi severamente criticada por ser excessivamente pró-fósseis e subestimar a capacidade das fontes renováveis. O estudo muda essa posição significativamente.

 

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