Já se fala em recessão mundial

Desaceleração nos países ricos, comércio mundial estagnado e mercado de trabalho ruim são sinais de advertência

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2022 | 03h00

Um cenário sombrio, porém real, da economia mundial foi desenhado num dos disputados painéis do Fórum Econômico Mundial na cidade suíça de Davos. Inflação em alta na Europa, nos Estados Unidos e em outros países (o Brasil se destaca entre estes); riscos de uma crise energética na Europa, dependente do suprimento de gás pela Rússia; escassez de alimentos; e persistência de problemas ambientais estão entre os elementos de uma conjuntura que pode levar à recessão global. A observação foi feita pelo ministro para Assuntos Econômicos e Proteção Climática da Alemanha, Robert Habeck. Não adianta resolver apenas a questão da inflação ou do suprimento de gás, disse Habeck. É preciso enfrentar todos os problemas ou pelo menos a maioria deles.

Embora possa soar um tanto exagerada, a advertência não pode ser ignorada. A invasão da Ucrânia pela Rússia agravou problemas resultantes da pandemia de covid-19 ou a eles acrescentou outros. As consequências já começam a surgir nas estatísticas sobre a atividade econômica mundial, que, neste momento, indicam a piora da situação.

Três importantes organizações econômicas internacionais divulgaram no mesmo dia relatórios que mostram essa tendência. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou uma aguda retração da evolução do PIB dos países associados – que estão entre as maiores economias do mundo – no primeiro trimestre de 2022. O crescimento foi de apenas 0,1% na comparação com o trimestre anterior. No último trimestre do ano passado, o aumento tinha sido de 1,2%.

Consideradas apenas as sete maiores economias do mundo (que formam o G-7), o resultado foi ainda pior. O PIB desses países encolheu 0,1% no primeiro trimestre do ano. No trimestre anterior o aumento tinha sido de 1,2%, igual ao de todo o grupo que constitui a OCDE.

Entre as causas do mau desempenho das principais economias do mundo, a OCDE cita o fraco resultado da balança comercial desses países, afetada fortemente pelos gargalos na cadeia mundial de suprimentos, e a queda da demanda interna.

O comércio mundial de bens também vai mal. Em sua pesquisa trimestral Barômetro do Comércio de Bens, a Organização Mundial do Comércio (OMC) constatou ligeiro aumento, de 98,7 para 99 pontos, mas ainda abaixo da marca divisória de 100, acima da qual há crescimento. Por isso, mesmo com a discreta melhora, o comércio mundial continua a patinar.

Do ponto de vista social, além de estudos de instituições multilaterais que mostram o avanço rápido da fome no mundo, o mais recente trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que o mercado mundial de trabalho se deteriorou de maneira acentuada no primeiro trimestre do ano. O número de horas trabalhadas, por exemplo, ainda está 3,8% abaixo do nível observado antes da pandemia. A recuperação é desigual e tem ampliado a distância entre os países ricos e os pobres. E em boa parte destes as limitações fiscais impedem a adoção de políticas públicas de apoio aos mais necessitados.

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