Juros altos contra os desmandos

Apesar do tom diplomático, ata do Copom é mais clara ao apontar Bolsonaro e equipe como fontes de pressões inflacionárias

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2021 | 03h00

Tormento das famílias, principalmente das menos abonadas, a inflação vai ultrapassar a meta neste ano e nos próximos três, segundo projeção do mercado. Se o Banco Central (BC) ainda precisasse de justificativa para novos aumentos de juros, as expectativas dos economistas do setor privado poderiam bastar. Pelas últimas estimativas, os preços ao consumidor devem subir 9,17% neste ano, 4,55% no próximo, 3,27% em 2023 e 3,07% no ano seguinte, o último do período representado no boletim Focus. Se o Comitê de Política Monetária (Copom) se concentrar em seu objetivo principal, a defesa do poder de compra do dinheiro, será inevitável o avanço no “território contracionista”, sombrio roteiro anunciado logo depois da recente elevação dos juros básicos para 7,75% ao ano.

Mantida a promessa, mais um aumento de 1,5 ponto de porcentagem, igual àquele anunciado na quarta-feira da semana passada, será formalizado na próxima reunião, prevista para os dias 7 e 8 de dezembro. Diante disso, o mercado já elevou para 9,25% a taxa básica prevista para o fim do ano. Mas a expectativa é de arrocho prolongado, num cenário de insegurança agravado pelos desmandos do presidente Jair Bolsonaro. Novos aumentos são esperados e a taxa estimada para o fim de 2022 já passou de 9,50% para 10,25%. Nos dois anos seguintes os juros poderão recuar para 7,25% e 6,75%, segundo as novas estimativas, mas continuarão superiores àqueles previstos há cerca de um mês.

A piora das expectativas inclui previsões de inflação acima da meta e crescimento econômico pífio. Segundo as últimas projeções, o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 4,94% neste ano e 1,20% no próximo. Quatro semanas antes os cálculos indicavam 5,04% e 1,57% para 2021 e 2022. Se a nova estimativa se confirmar, a retomada compensará com pequena sobra a retração econômica de 4,1% ocorrida no ano passado. Essa é uma das explicações para a lenta redução do desemprego. Mas o dado mais significativo é o desempenho esperado para o último ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro.

Abaixo de medíocre, esse desempenho escancara mais uma vez o fracasso econômico do presidente e de sua equipe. Quase nada se fez, a partir de 2019, para aumentar o potencial de crescimento do Brasil. A taxa estimada para 2021 indica somente a saída do buraco onde o País afundou em 2020. Além disso, grandes bancos e consultorias preveem para 2022 números bem abaixo daquela mediana de 1,20%. Algumas projeções estão na faixa de zero a 0,5%.

Baixo potencial produtivo e preços desarrumados sintetizam os grandes desajustes. A inflação muito elevada é explicável em parte pelas cotações internacionais de matérias-primas, pelos desarranjos das cadeias produtivas e por problemas climáticos. Mas esses problemas, vividos em muitos países, foram potencializados no Brasil pela insegurança dos investidores e financiadores, pelo tratamento inábil da crise hídrica e pelo enorme desajuste cambial – em suma, pelo inadequado comportamento do presidente da República e pela desmoralização da política econômica.

A ata da última reunião do Copom destaca o aumento recente das commodities energéticas, como petróleo e gás. O impacto inflacionário desse aumento “é amplificado pela depreciação do real, sendo essa combinação o fator preponderante para a elevação das projeções de inflação do Comitê tanto para 2021 quanto para 2022”.

A referência ao dólar supervalorizado é mais clara nessa ata do que em comunicados anteriores. Mas cuidados diplomáticos são mantidos. Não se denuncia o principal causador da alta do dólar, o presidente Bolsonaro, nem se explicita o ataque ao teto de gastos como fator de inquietação. Mas é esse o assunto, obviamente, quando se mencionam “recentes questionamentos em relação ao arcabouço fiscal”. Esses questionamentos, segundo a ata, “elevaram o risco de desancoragem das expectativas de inflação”. Tentando restabelecer essa âncora, o Copom reafirma o compromisso de levar a inflação à meta de 3,50% em 2022. Faltou o aviso: arranje-se quem puder.

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