Juros, uma política com rumo

O BC trabalha pela recuperação da economia, mas isso também depende de iniciativas do Executivo e de sua competência, nem sempre comprovada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2019 | 03h00

Com mais um corte de juros e perspectiva de nova redução antes do fim do ano, o Banco Central (BC) continua trabalhando para facilitar a recuperação da economia brasileira. Mas essa recuperação dependerá também de iniciativas do Executivo e de sua competência, nem sempre comprovada, na cooperação com o Legislativo.

Até agora, as ações mais seguras e eficientes têm partido mesmo dos administradores da moeda e do crédito. Isso se repetiu na quarta-feira passada, quando o Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, cortou de 6% para 5,5% a taxa básica de juros, a Selic. Foi o segundo corte em duas deliberações consecutivas. Antes disso, a Selic havia permanecido em 6,5% por 16 meses. O comitê é formado por diretores do banco.

Três horas antes do anúncio do Copom, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) havia informado nova baixa de juros. A taxa básica passou do intervalo de 2% a 2,25% para a faixa de 1,75% a 2%, num movimento combinado com a injeção de US$ 128 bilhões no mercado. Na semana anterior, mais estímulos haviam sido confirmados pelo Banco Central Europeu (BCE), empenhado em dar algum impulso à cambaleante economia regional. As ações dos dois bancos centrais mais poderosos do Ocidente compuseram parte importante do cenário para a decisão tomada em Brasília.

Em nota distribuída pouco depois de sua reunião, o Copom mencionou como fator relevante “a provisão de estímulos monetários adicionais nas principais economias, em contexto de desaceleração econômica e de inflação abaixo das metas”. A redução do custo do capital nos mercados financeiros do mundo rico tem criado, segundo a nota, um “ambiente relativamente favorável para as economias emergentes”.

Mas é preciso, ressalvam os autores do comunicado, levar em conta o risco de maior enfraquecimento da economia global. Com isso, a nota remete o leitor à tendência confirmada pelo menor impulso dos negócios, especialmente do comércio internacional, no segundo trimestre.

Do lado interno, a decisão do Copom é sustentada pela expectativa de inflação próxima da meta pelo menos por mais dois anos, pela ampla ociosidade da economia e pelo avanço já observado na agenda de ajustes e reformas.

Como em várias ocasiões anteriores, o comunicado realça a importância de novos progressos na execução dessa agenda. Qualquer frustração quanto a esse ponto pode afetar perigosamente as expectativas, a formação de preços de ativos e o ritmo da inflação.

O risco se agrava, segundo a nota, se combinado com uma piora do cenário externo para as economias dos países emergentes. Um dos efeitos, como parece implícito no texto do Copom, seria provavelmente um aumento da instabilidade cambial. Seria uma tempestade quase perfeita, poderiam ter acrescentado os autores do comunicado.

Com o novo corte, a taxa básica chegou ao ponto mais baixo desde a implantação, em 1999, da política de juros como principal instrumento da gestão monetária. O Copom mencionou no comunicado a possibilidade de “ajuste adicional no grau de estímulo”, sem se comprometer, no entanto, em relação a qualquer decisão. Essa ressalva é um cuidado habitual dos membros do Copom.

Para os empresários, a redução de juros deve produzir como principal benefício, a curto prazo, o barateamento do capital de giro. O custo dos empréstimos, embora permanecendo bem acima da taxa básica, tem caído desde o começo da redução da Selic.

Há, de toda forma, um alívio. O estímulo aos investimentos será mais notado quando a economia ficar mais ativa e a ociosidade do parque industrial diminuir. Para o governo, a queda da Selic produz um benefício mais sensível a curto prazo, pela redução do custo de uma parcela significativa da dívida pública.

Como a agenda de reformas tem avançado basicamente graças à ação de parlamentares, o Congresso tem sido a grande fonte de segurança para as decisões do Copom. O presidente da República, Jair Bolsonaro, e seus ministros têm estado muito ocupados com as crises internas do Executivo e com o comprometimento da imagem do País.

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