Letras para todos

A proficiência em leitura, além de ser um indicador de fácil compreensão e mensuração, é a porta de entrada para todos os outros conhecimentos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2019 | 03h00

Entre as dez metas estabelecidas para a educação que constam dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável para 2030, ratificados pelos 193 países-membros da ONU, a mais básica, juntamente à escolarização universal, é que todos tenham conhecimentos primários em leitura, escrita e matemática. Embora 260 milhões de crianças no mundo ainda não frequentem escolas, o acesso tem crescido com certa velocidade. A instrução, porém, ainda é terrivelmente falha. Segundo o Banco Mundial, 53% de todas as crianças em países de média e baixa renda sofrem de “pobreza de aprendizado” (learning poverty), um critério que implica a incapacidade de ler e compreender um texto simples aos dez anos de idade – ou seja, uma capacitação um pouco acima do analfabetismo absoluto, mas um pouco abaixo do analfabetismo funcional, que pressupõe deficiências graves de escrita e cálculo.

No ritmo atual, em 2030 a proporção de crianças pobres de aprendizado nos países em desenvolvimento cairá para 43%. O Banco Mundial propõe reduzir o número atual pela metade, isto é, 26%, meta ambiciosa, mas factível, se todos os países conseguirem melhorar o ensino na mesma medida que os países de melhor desempenho entre 2000 e 2015. Pelas simulações do Banco, isso triplicaria a taxa global de progresso.

O foco na leitura é consequente. Embora as habilidades básicas compreendam aptidão numérica, raciocínio fundamental e habilidades socioemocionais, entre outras, a proficiência em leitura, além de ser um indicador de fácil compreensão e mensuração, é a porta de entrada para todos os outros conhecimentos. Quem aprende a ler pode, por meio da leitura, aprender virtualmente qualquer outra coisa. A fim de auxiliar os países em desenvolvimento a melhorar o letramento de suas populações, o Banco propõe três pilares.

Em primeiro lugar, um pacote de políticas públicas que consiste em garantir quatro componentes: 1) o compromisso político e técnico com objetivos e medidas para a alfabetização; 2) ensino eficiente; 3) acesso a textos; e 4) a capacitação na língua que as crianças falam e entendem.

Em segundo lugar, uma abordagem educacional renovada, baseada em cinco tópicos. Primeiro, suporte às famílias e ao ensino na primeira infância, para que os alunos estejam motivados para a alfabetização. Segundo, um sistema meritocrático que invista em boas condições de trabalho e formação continuada para os professores. Terceiro, um currículo simples e eficaz, livros e tecnologia de suporte e uma pedagogia estruturada, a fim de que as classes estejam bem equipadas. Quarto, assegurar que as escolas sejam ambientes seguros e inclusivos. Por último, os sistemas educacionais devem ser geridos por uma burocracia profissional baseada no mérito e critérios de governança claros.

O terceiro pilar é o aparato de mensuração e pesquisa que o Banco oferecerá a cada país, com foco no diagnóstico e na implementação de soluções – em especial tecnológicas – que possam ser disponibilizadas a alunos e professores. A melhora nos índices de alfabetização dependerá, naturalmente, não só de medidas diretas no campo da educação, mas de ações multissetoriais (por exemplo, no saneamento, saúde, nutrição, proteção social ou serviço público).

Entre os casos de sucesso elencados pelo Banco, o Vietnã, que há uma geração estava longe até do acesso universal à educação primária, praticamente eliminou a pobreza de aprendizagem por meio de currículo nacional, universalização do acesso a manuais e combate à evasão de alunos e professores. O Quênia conquistou resultados expressivos com tecnologias simples. O município de Sobral, no Ceará, após reformar o plano de carreira dos professores e fornecer materiais adequados a todos, saltou, em uma década, da 1.366.ª posição no ranking do Ideb para a 1.ª. Casos assim mostram que nem todas as melhorias precisam vir por processos de sedimentação lentos e imperceptíveis. Cargas redobradas de boa vontade e choques de gestão podem produzir resultados quase instantâneos.

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