Lições da Argentina

Se há algo previsível na Argentina, é a tendência de todos os governos de cometer os mesmos erros, gerando uma conhecida sensação de euforia seguida de imensa ressaca quando a conta chega

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 03h00

O Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) da Argentina informou que 35,4% da população do país, ou 15,9 milhões de pessoas, está vivendo abaixo da linha de pobreza. Em 1974, esse porcentual era de apenas 4%.

A catástrofe social é especialmente grave quando se compara a Argentina com o resto do mundo, que apresenta diminuição consistente da pobreza extrema – de acordo com o Banco Mundial, a parcela de pobres caiu de 36% da população total (1,8 bilhão de pessoas) em 1990 para 10% (736 milhões de pessoas) em 2015.

Como lembrou o jornal Ámbito Financiero, o país está “na contramão do mundo”, o que constitui “a face mais cruel da falta de progresso da economia”. Dados do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica da Argentina indicam que quase 47% das crianças do país vivem em famílias pobres. Além disso, o Indec informou que em metade das residências argentinas a renda não alcançou, no segundo trimestre do ano, o suficiente para comprar uma cesta básica.

Não se chega a uma situação como essa sem que haja muito esforço, sobretudo quando se considera que a Argentina era, há apenas um século, um dos países de maior renda per capita do mundo. A prosperidade se devia basicamente ao comércio internacional de carne e grãos, que a Argentina dominava. Em lugar de preparar-se para um futuro em que a produção de alimentos teria impulso natural com a industrialização e a melhoria técnica em quase todo o mundo, reduzindo as vantagens do país na competição internacional, os argentinos julgaram que a renda proveniente das exportações agropecuárias estava garantida para sempre. Com essa mentalidade, construiu-se no país um Estado de Bem-Estar Social inspirado na experiência europeia, mas contaminado pelo populismo corrupto que dominaria a Argentina dali em diante.

Assim, governos de diferentes vertentes – peronistas e não peronistas, esquerda e direita – não se diferenciavam uns dos outros quando o assunto era o tamanho do Estado: mesmo os presidentes que prometeram reformá-lo drasticamente, como o atual, Mauricio Macri, acabaram recorrendo às receitas demagógicas que construíram todas as crises argentinas ao longo de sua marcha rumo ao empobrecimento.

Se há algo previsível na Argentina, é a tendência de todos os governos de cometer os mesmos erros, gerando uma conhecida sensação de euforia seguida de imensa ressaca quando a conta chega. Quase todos os presidentes, mesmo os que se diziam liberais, adotaram alguma forma de controle de preços para conter a inflação que resultava da gastança estatal, em vez de desmontar a estrutura que drenava e continua a drenar as riquezas nacionais, concentrando-as nas mãos de grupos privilegiados – restando aos mais pobres os benefícios de programas sociais. Como lembra o Ámbito Financiero, 19 milhões de argentinos, numa população de 44,5 milhões, recebem algum recurso do Estado, na forma de assistência, de aposentadoria ou de salário.

Com a provável volta do populismo kirchnerista ao poder, presume-se que mesmo o esforço apenas parcial do atual governo de reformar o Estado e racionalizar os gastos públicos será interrompido. A chapa que tem Cristina Kirchner como vice já fala em retomar o congelamento de tarifas.

Eis aí, talvez, o principal entrave para o enfrentamento dos problemas na Argentina, aspecto que deve servir de lição para o Brasil: não é possível que cada novo governo anule o que seu antecessor fez, como se o país tivesse que ser refundado a cada sucessão presidencial. É preciso que haja estabilidade no respeito aos fundamentos da economia, seja qual for a orientação política de quem assume o poder. É preciso um acordo mínimo de governabilidade entre as forças políticas para preparar o país para as épocas de crise e para aproveitar melhor os momentos de prosperidade, alongando os ciclos de crescimento e reduzindo os impactos das recessões. Sem isso, a pobreza se torna normal – e resta ao país apenas a melancólica nostalgia do que poderia ter sido.

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