Lições dos erros no mundo rico

Desastres nos EUA e na Europa ensinam a temer a covid e a planejar a retomada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2020 | 03h00

Devastadora como o vírus, a recessão espalhou-se com rapidez, jogou o mundo rico num grande buraco e travou o comércio global no trimestre recém-terminado. Na maior potência do mundo, os Estados Unidos, o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre foi 9,5% menor que o do primeiro, segundo a primeira estimativa oficial. Na União Europeia a queda foi de 11,9%. Na zona do euro o tombo foi de 12,1%, com resultados muito mais feios em alguns grandes sócios, como a França (-13,8%) e a Espanha (-18,5%). No Brasil, estimativa preliminar do governo, divulgada no meio de julho, aponta um recuo trimestral de 7,5% no período de abril a junho, mas a atualização oficial das contas nacionais só deve sair em 1.º de setembro. Em relação aos mesmos três meses do ano passado a perda foi de 9,3%, de acordo com o mesmo cálculo provisório.

Todos esses números são os piores das séries históricas disponíveis nesses países. Nem na crise financeira de 2008-2009, a mais grave desde a depressão mundial iniciada em 1929, houve perdas tão grandes e tão difusas no nível de atividade. O governo americano costuma divulgar as contas nacionais sob a forma de dados anualizados. Projetada para um ano, a queda trimestral do PIB dos Estados Unidos chegaria a 32,9%. Esse foi o número apresentado oficialmente na quinta-feira, mas o resultado efetivo em 12 meses será quase certamente muito menos negativo.

Mesmo com a reativação já observada no mundo rico e em vários emergentes, incluído o Brasil, ainda é arriscado apostar numa recuperação sustentada neste ano e no próximo. O controle da pandemia é muito desigual nos Estados Unidos. A contaminação e o número de mortes têm aumentado em vários pontos do país. Alguns governos têm dado marcha à ré nos programas de abertura e isso deve prejudicar a retomada dos negócios e do emprego.

Problemas semelhantes têm ocorrido na Europa. Depois da melhora observada nas curvas de contágio e de mortes, o quadro sanitário voltou a se agravar em algumas cidades e regiões. O caso da Catalunha, na Espanha, é um dos mais notórios, mas o repique da doença tem sido observado em outros países, incluída a Inglaterra.

A intensidade do repique varia entre regiões, mas ficou claro o sinal de alarme quanto ao ritmo e às condições da retomada. Mesmo nos países com melhor desempenho no controle da pandemia, o risco permanece alto, como tem alertado a Organização Mundial da Saúde (OMS). Só haverá reais condições de segurança quando se dispuser de vacinas e, talvez, de medicamentos eficazes contra a covid-19. A experiência do mundo rico, onde a epidemia se manifestou antes de ser notada no Brasil, deveria valer como advertência para as autoridades brasileiras, começando pelas federais.

Se o aproveitamento dessa lição depender do presidente Jair Bolsonaro, dificilmente ocorrerá, a julgar por seu comportamento até agora. Sem coordenação federal, governos estaduais tomam decisões às vezes apressadas e aprendem com erros custosos e até mortíferos. Também por isso é arriscada qualquer projeção econômica. O governo insiste em apostar numa contração de 4,7% em 2020, enquanto estimativas do mercado ficam entre -5% e -6%. Qualquer cálculo é muito inseguro enquanto continua o jogo de avanços e recuos na reabertura. A precipitação, como alertaram vários economistas, pode ser mais prejudicial ao crescimento do que um avanço menos ambicioso e mais planejado.

Com avanço de 11,5% no segundo trimestre, depois do tombo de 6,8% no primeiro, a China é exceção entre as grandes economias. O mercado chinês absorveu cerca de um terço das exportações brasileiras no primeiro semestre. Graças à China, e ao agronegócio, o País mantém alguma segurança no balanço de pagamentos, mesmo com redução das vendas totais. O ambiente internacional permanece desfavorável, de modo geral. No segundo trimestre, segundo estimativa preliminar da OMC, o intercâmbio global de mercadorias deve ter sido 18,5% menor que o de um ano antes. No Brasil, o agro continua sendo o grande pilar do comércio.

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