Limites do trabalho remoto

Apesar do avanço do home office, a grande maioria das vagas está no trabalho presencial

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 03h00

A rapidez com que muitas empresas, em acordo com seus empregados, conseguiram instituir regimes de trabalho diferenciados para reduzir os contatos pessoais e, assim, reduzir também os riscos de contágio pela covid-19, sem perda perceptível no resultado final, mostrou que o trabalho remoto pode ser uma boa solução para muitas atividades. O crescimento do home office durante a pandemia foi uma das transformações mais notáveis no mercado de trabalho em todo o mundo. Sua adoção permitiu a continuidade de uma grande variedade de serviços mesmo nos momentos mais graves da pandemia. É enganoso, porém, imaginar que seu alcance sobre as diferentes atividades humanas remuneradas continuará a crescer como se observou até agora. A grande maioria das profissões só pode ser exercida de maneira presencial.

O título de reportagem publicada pelo Estado (21/3) é esclarecedor: Trabalho remoto não passa nem perto da maioria.

Um imenso grupo de trabalhadores não tem como trabalhar em casa. No fim de 2019, alguns meses antes do início da crise da covid-19, esse grupo que não pode trabalhar em regime de home office somava 79,7 milhões de pessoas, ou 86% do total de empregados no País. Na ocasião, considerava-se que 12,9 milhões de trabalhadores (os 14% restantes) podiam desempenhar suas tarefas a distância, de acordo com estudo da IDados ao qual a reportagem teve acesso.

Durante o ano passado, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) acompanharam a evolução do trabalho remoto, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid-19 que o IBGE realizou até dezembro. No dado mais recente, de novembro, o Ipea constatou que o contingente de trabalhadores atuando de forma remota somava 7,3% milhões de pessoas, o que correspondia a 9,1% das pessoas ocupadas e não afastadas. No mês anterior, correspondia a 9,6% do total.

A diferença se deve a conceitos e metodologias utilizadas em um e em outro estudo, mas ambos mostram que, mesmo quando o home office alcançou seu porcentual mais alto durante a pandemia, mal alcançou 10% do total de pessoas ocupadas. De fato, não chega perto da maioria dos trabalhadores, como diz a reportagem.

O estudo do Ipea mostra, além do limite de abrangência, o caráter diferenciado do trabalho remoto sob várias perspectivas. Quanto à renda, por exemplo, é notório que quem trabalha em regime de home office ganha em média mais do que os demais trabalhadores. Embora não constituíssem 10% do total de pessoas ocupadas em novembro do ano passado, os que trabalhavam em home office haviam recebido 17,4% da massa total de rendimentos efetivamente gerados naquele mês.

Outra característica do trabalho remoto é seu alto índice de formalização. Dos que trabalhavam em home office em novembro, 84,8% tinham registro em carteira, enquanto em todo o mercado de trabalho a informalidade alcança cerca de metade do trabalhadores.

A distribuição geográfica é outro diferencial do trabalho remoto em relação às demais ocupações. Os trabalhadores em home office concentram-se no Distrito Federal, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O perfil traçado pelo Ipea da pessoa em teletrabalho é predominantemente de pessoa ocupada no setor formal, com escolaridade de nível superior completo, do sexo feminino, de cor branca e idade entre 30 e 39 anos.

É um perfil muito diferente da média do trabalhador brasileiro que forma quase 90% do mercado. Este ganha menos, tem menor escolaridade, tende a estar no mercado informal, seu porcentual é maior em regiões menos desenvolvidas e está mais sujeito aos riscos de contágio por causa dos deslocamentos para o trabalho presencial. Suas oportunidades de ocupação são mais escassas e seus riscos de demissão, maiores. Com o fim do auxílio emergencial, sua renda média certamente caiu.

É essa imensa maioria do mercado de trabalho que precisa da atenção preferencial das autoridades.

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