Lula e Bolsonaro, unidos no cinismo

Flávio Bolsonaro diz que o pai ‘não está preocupado com voto’; e Lula declara que não vai ‘pensar na reeleição’

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2022 | 03h00

O lulismo e o bolsonarismo têm muito mais similaridades do que os apoiadores de uma e de outra vertente populista teriam coragem de admitir em público. O cinismo é uma dessas encruzilhadas onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) se encontram.

Há poucos dias, Lula escreveu no Twitter que, caso seja eleito, não será “um presidente que vai pensar na reeleição”. O petista quer que os incautos acreditem que ele dará “mais quatro anos de sua vida” ao País e pronto, “depois, gente mais nova disputa a eleição”. Ora, a trajetória político-partidária de Lula não autoriza um mísero traço de confiança nessa falsa promessa, nem com muita boa vontade. Lula dorme e acorda pensando não apenas em eleições, mas principalmente na defesa de seus próprios interesses eleitorais. Quando governou, jamais desceu do palanque – isto é, sempre se comportou como candidato, tratando a oposição como adversária eleitoral, e não como legítima voz da minoria, e transformando todo e qualquer ato presidencial em evento de campanha.

O centralismo de Lula no comando do PT extrapola os limites de seu próprio partido e absorve, praticamente, toda a esquerda, interditando o surgimento de “gente mais nova” que possa arejar esse campo político. Todos os nomes que ameaçaram lhe fazer sombra no passado foram colocados em seu devido lugar. Em outras palavras: enquanto dispuser de condições legais e físicas, Lula seguirá disputando eleições.

O presidente Jair Bolsonaro é outro que deve achar que todos os brasileiros são tolos. A dilapidação da Lei Eleitoral, da Lei das Estatais, da Lei de Responsabilidade Fiscal, do teto de gastos, entre outros marcos legislativos que representaram grandes avanços para o País, seria, para Bolsonaro, a única forma de reduzir as aflições dos mais pobres. É risível. Bolsonaro jamais se preocupou com os desvalidos, nem quando era vereador no Rio de Janeiro, nem quando deputado federal e tampouco como presidente da República. Suas ações políticas giram na órbita de seus interesses pessoais. Tanto é assim que Bolsonaro teve de inventar de uma hora para outra um mal-ajambrado “programa social”, o Auxílio Brasil, para ter o que apresentar para as camadas mais pobres da população no curso da campanha que se avizinha.

Em entrevista ao Estadão, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), afirmou que “sinceramente, ele (Jair Bolsonaro) não está preocupado se (a despudorada PEC da bolsa-eleição) vai dar voto ou não. Ele está fazendo (isso) porque os mais pobres precisam”. Há quem compre a patranha.

Só alguém muito ingênuo haveria de esperar que políticos só falassem a verdade durante uma campanha eleitoral, sobretudo uma campanha que tem tudo para ser uma das mais virulentas e mentirosas da história recente do País. Mas, nos últimos dias, o grau de desfaçatez dos dois pré-candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto tem chegado às raias da ofensa à inteligência – e à memória – de milhões de brasileiros.

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