Luta pela liberdade

Será muito difícil conter o desejo latente da população de Hong Kong por liberdade e democracia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 03h00

A escalada dos protestos pró-liberdade em Hong Kong levou a líder executiva do território chinês, Carrie Lam, a recuar e retirar um projeto de lei que autorizava a extradição de pessoas processadas judicialmente para a China continental. A apresentação do projeto de lei, em março, desencadeou uma onda de manifestações contrárias, na pior crise política na cidade em muitos anos.

Desde junho, aumentou a tensão no território chinês, que tem o status de Região Administrativa Especial dentro da política de “um país, dois sistemas”. Após o recuo de Lam, espera-se que os ânimos arrefeçam. Será muito difícil, porém, conter o desejo latente da população de Hong Kong por liberdade e democracia.

O aumento recente das tensões geopolíticas e econômicas entre a China e os Estados Unidos agravaram ainda mais a situação em Hong Kong. Pequim tem tratado dos protestos como uma questão de soberania e segurança nacional, não admitindo emitir ao mundo qualquer sinal de fraqueza ao lidar com a crise em seu território, ex-colônia britânica até 1997.

No final de agosto, a repressão aos protestos atingiu seu ápice. Pela primeira vez, a polícia de Hong Kong usou caminhões de jatos d’água e bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes pró-democracia, que revidaram com bombas incendiárias. Houve relatos de uso de arma de fogo por um agente público, mas sem feridos.

Em reunião com um grupo de empresários locais, Carrie Lam admitiu ter “um espaço de manobra muito limitado” para resolver a crise política, vale dizer, está totalmente submetida ao comando de Pequim, embora Hong Kong, oficialmente, goze de relativa autonomia política e, sob o ponto de vista econômico, aproxime-se bem mais dos países ocidentais.

Ao grupo, Lam afirmou ainda ter causado “um dano imperdoável” ao apresentar o projeto de lei de extradição. O recuo foi um gesto prudente de quem, no mínimo, se mostra disposta a rever seus atos quando produzem “danos” tais como os observados em Hong Kong até agora.

O receio da população em relação ao projeto de lei, em boa hora retirado, deve-se ao fato de que a extradição, uma vez aprovada, submeteria os habitantes de Hong Kong aos tribunais chineses, que são controlados pelo Partido Comunista. Não é, portanto, um receio infundado. Como confiar na prevalência de garantias processuais comezinhas em tribunais controlados por um regime de exceção?

A lei de extradição proposta por Carrie Lam foi apenas mais um gatilho para o início de uma nova série de protestos que tendem a continuar ocorrendo de tempos em tempos. Em 2014, vale lembrar, os habitantes de Hong Kong foram às ruas reivindicar mudanças no sistema eleitoral, no que ficou conhecido como a “Revolta dos Guarda-Chuvas”. Os atos levaram à queda do então líder executivo do território, Leung Chun-ying.

Ao fim e ao cabo, os habitantes de Hong Kong, um dos maiores centros financeiros da Ásia, lutam contra a distorção da política de “um país, dois sistemas” que foi pactuada à época da devolução da ex-colônia britânica aos chineses. Ela prevê liberdades no território que são impensáveis para os cidadãos da China continental, como direito ao voto para representação legislativa. Ao longo dos anos, essas liberdades têm sido tolhidas por Pequim. Na prática, caminha-se para “um país, um sistema”, um sistema de censura, repressão violenta e supressão de liberdades, embora a China tenha se comprometido com o Reino Unido a manter os termos de “um país, dois sistemas” por 50 anos, ou seja, até 2047.

“Sabemos que esta é a última chance de lutarmos por ‘um país, dois sistemas’. Do contrário, o Partido Comunista da China vai invadir nossa cidade natal e controlar tudo. Se nos mantivermos fortes, podemos seguir com este movimento por justiça e democracia”, disse o engenheiro M. Sung, que tem participado das manifestações desde março.

Ninguém sabe como será a relação China-Hong Kong após 2047. O que se sabe é que até lá a liberdade terá de ser uma conquista diária.

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