Mais ajuda na hora certa

Prorrogar o auxílio emergencial tem valor humanitário e macroeconômico

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2020 | 03h00

Milhões de pessoas poderão continuar comendo, enquanto a economia estiver deixando a pior fase da crise, graças à prorrogação do auxílio emergencial. Além disso, a injeção de mais R$ 1.200 no orçamento de cada família inscrita no programa poderá dar mais um empurrão no consumo, contribuindo para a retomada, ainda muito lenta, do comércio, dos serviços e da indústria. O caráter humanitário bastaria para justificar o gasto público adicional de R$ 101,6 bilhões. Essa despesa, porém, é também funcional do ponto de vista macroeconômico. De toda forma, cada bilhão a mais aplicado em ações anticrise tornará mais difícil arrumar as contas públicas a partir de janeiro. Mas há motivos muito bons para aceitar essa complicação.

Não é esse o caso do aumento de 73% inoportunamente concedido a militares pelos cursos concluídos durante a carreira. Esse “adicional de habilitação”, incluído já neste mês na folha de pagamento, custará R$ 1,3 bilhão em 2020 e R$ 26,5 bilhões em cinco anos. Será um gasto crescente e atingirá R$ 8,14 bilhões em 2024. Essa despesa sobrecarregará o Tesouro, impondo mais um obstáculo à recuperação econômica. Essa recuperação dependerá crucialmente, em 2021 e nos anos seguintes, de um governo capaz de consertar suas finanças e de preservar a credibilidade perante o mercado.

Sem os mimos concedidos aos militares, os demais trabalhadores enfrentam – no serviço público e, principalmente, no setor privado – as consequências da maior crise registrada no Brasil em muitas décadas. Chegou a 30,4 milhões, no trimestre móvel terminado em maio, o contingente de subutilizados. Esse número, recorde na série do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), inclui desocupados, subocupados por insuficiência de horas, desalentados e outros componentes da força de trabalho potencial.

A parcela de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar foi a mais baixa da série: 49,5%. Houve queda de cinco pontos em relação à taxa do trimestre findo em fevereiro. A pandemia gerou no mercado de emprego, principalmente a partir de abril, uma devastação dificilmente imaginável em outras crises. Em outras ocasiões, a redução de ocupações assalariadas foi acompanhada de aumento no trabalho por conta própria. Desta vez, nem essa alternativa sobrou. O grupo de trabalhadores por conta própria foi reduzido a 22,4 milhões, com redução de 8,4% em relação ao trimestre anterior e de 6,7% na comparação com o mesmo período de 2019.

Com a piora do emprego, a massa de rendimento real proveniente do trabalho chegou a R$ 206,6 bilhões, com recuo de 5% em relação ao trimestre anterior. No confronto com o ano anterior a redução foi de 2,8%.

Fica realçada com esses dados a importância da prorrogação do auxílio emergencial. O pagamento adicional de R$ 101,6 bilhões aos beneficiários do programa é mais que oportuno: tem importância vital para pessoas muito vulneráveis e proporciona algum vigor, embora muito limitado, ao mercado consumidor.

Apesar dos danos acumulados a partir de abril, empresários mostram alguma animação quanto ao futuro próximo. Em junho, continuou subindo o Índice de Confiança Empresarial medido pela Fundação Getúlio Vargas. Esse indicador, baseado em consultas a representantes da indústria, do comércio, dos serviços e da construção, subiu no mês passado 14,9 pontos em relação ao nível de maio e chegou a 80,4 pontos. Com a alta acumulada em dois meses houve recuperação de 61% das perdas de março e abril. A melhora reflete mais as expectativas quanto aos próximos meses do que a avaliação do quadro atual. Dados positivos apareceram também no Índice de Gerentes de Compras da Indústria, publicado pela IHS Markit, grupo internacional especializado em avaliações econômicas. De maio para junho o indicador subiu 38,3 pontos e chegou a 51,6, superando a fronteira (50 pontos) entre as áreas negativa e positiva. Mas as perspectivas, segundo o informe, são de retomada lenta e com novos cortes de custos. Nesse cenário, qualquer empurrão pode ser precioso.

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