Mais arrocho num país estagnado

Para conter a inflação desembestada, o Banco Central promete dificultar o crédito numa economia já muito fraca e com alto desemprego

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2022 | 03h00

Dinheiro curto, crédito caro e inflação elevada vão infernizar os consumidores e atrapalhar os negócios até o fim do ano, segundo cálculos do mercado e do Banco Central (BC). Algum alívio poderá surgir em 2023, no começo do novo mandato presidencial. Mas os brasileiros ainda pagarão por desacertos e desastres acumulados a partir de 2019 e agravados, agora, pelos efeitos da invasão da Ucrânia. Depois de aumentar os juros básicos para 11,75% na quarta-feira, o Copom, Comitê de Política Monetária do BC, anunciou nova alta de um ponto porcentual no começo de maio, em sua próxima reunião. Novos aumentos poderão ocorrer, nos meses seguintes, no esforço para conter os preços. Especialistas projetam taxas na faixa de 13% a 14% ainda neste ano, com evidentes prejuízos para o crescimento econômico.

Também na quarta-feira, o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, iniciou um ciclo de aperto monetário. Os juros de referência passaram da faixa de zero a 0,25% para o intervalo de 0,25% a 0,50% e devem continuar subindo. A inflação anual bateu em 7,9% em fevereiro, um recorde em quatro décadas. Mas o quadro americano é muito diferente do brasileiro. A economia cresceu 5,7% em 2021, o desemprego tem oscilado em torno de 4% e a atividade continua vigorosa.

No Brasil, o arrocho do crédito ocorre em cenário de estagnação. A economia cresceu 4,6% em 2021 e superou por pouco o patamar pré-pandemia. Mas o desemprego ficou em 11,1% no trimestre final do ano passado e a inflação, nos 12 meses até fevereiro, superou 10%. Para 2022 as estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) têm ficado perto de 0,5%.

Não há espaço para uma política monetária branda, nas condições brasileiras, se o Copom mantiver o compromisso de conduzir a inflação à meta oficial até 2023. No melhor cenário, com o barril de petróleo a US$ 100 no fim deste ano, a inflação ainda alcançará 6,3% em 2022. Mais uma vez, como em 2021, será estourado o teto da meta, fixado em 5%. Em 2023 a alta dos preços ao consumidor poderá ficar em 3,1%, superando o centro do alvo por apenas 0,1 ponto.

No cenário de referência usado pelo Copom, os juros ficam neste ano em 12,75%, com inflação de 7,1%, e recuam para 8,75% no próximo, com os preços aumentando 3,4%. Mas esse quadro, baseado na trajetória de juros indicada pela pesquisa Focus, é descartado pelos formuladores da política de crédito.

O caminho mais seguro, segundo as indicações do Copom, é o de um aperto bem mais forte que o executado a partir do ano passado, quando se alterou a estratégia do BC. Medidas mais severas já eram consideradas inevitáveis no começo deste ano. Depois da reunião encerrada em 2 de fevereiro, quando a taxa básica foi aumentada para 10,75%, o comitê prometeu um ciclo de aperto “mais contracionista que o utilizado no cenário de referência”. Uma política mais severa foi prometida no comunicado emitido no começo da noite da última quarta-feira. Segundo o texto, o aperto monetário deve continuar avançando “significativamente em território ainda mais contracionista”.

Nesse “território ainda mais contracionista” deverá haver menos espaço para a expansão da atividade econômica e para a ampliação do emprego. O resultado final – em termos de inflação, de evolução do PIB e de geração de postos de trabalho – dependerá do confronto entre o aperto do crédito e as medidas de estímulo econômico prometidas pelo Executivo.

Empenhado na disputa eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro, com apoio do Centrão, exigirá mais gastos e mais ajuda, com ou sem planejamento, a grupos pobres. Ao mesmo tempo, deverá continuar tentando neutralizar efeitos inflacionários da crise internacional. Não há como descartar, por enquanto, o uso de benefícios tributários e de subsídios. Menos provável, neste momento, é uma política econômica – e especialmente fiscal – bem desenhada e bem conduzida. Quanto maior a farra, mais duro poderá ser o arrocho, se o Copom, como tem prometido, insistir na missão de frear os preços desembestados.

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