Mais liberdade, mais prudência

A guerra não terminou. Se a ordem é cada vez menos “Fique em casa”, isso significa que deve ser cada vez mais “Fique alerta!”

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 03h00

Desde o dia 17, todos os estabelecimentos comerciais do Estado de São Paulo passaram a operar sem restrições de ocupação e horário. Eventos com potencial de aglomeração, como shows, festas em casas noturnas e competições esportivas com público seguem vetados pelo menos até novembro. Regras como o uso de máscaras, distanciamento social e protocolos de higiene permanecem em vigor.

O momento é paradigmático. Como em outras partes do mundo, fatores como a densidade populacional e a alta circulação de estrangeiros e nacionais em São Paulo favoreceram a disseminação do vírus. O Estado registrou o primeiro caso e a primeira morte, foi um dos epicentros da crise no Brasil e um dos primeiros a adotar restrições duras.

Mas de São Paulo também veio a primeira e mais aplicada vacina no Brasil, a Coronavac, através dos esforços do governo na promoção da parceria entre o Instituto Butantan e a farmacêutica Sinovac. O Estado lidera a taxa de imunização: quase 70% receberam a primeira dose e quase 30% estão imunizados. Na capital, a Virada Vacinal concluiu a aplicação da vacina em 100% da população adulta.

No Brasil, 55% da população foi vacinada com a primeira dose e 23% estão imunizados. Pela primeira vez desde outubro, nenhum Estado tem mais de 80% das UTIs ocupadas. Pela oitava semana consecutiva o ritmo de contágio (Rt) se manteve abaixo de 1 – se é superior, significa que cada infectado transmite a mais de uma pessoa e a propagação avança.

Há boas razões para o otimismo. Mas o pior que poderia acontecer é a população e as autoridades se deixarem intoxicar por um clima de “já ganhou”. No atual estágio da guerra contra esse inimigo novo, invisível e em constante mutação, tão razoável quanto esperar pelo melhor é se preparar para o pior.

Em Israel, por exemplo, que se tornou uma espécie de laboratório para o mundo ao se colocar na vanguarda da imunização, a variante Delta, sobre a qual uma das poucas certezas é de que é imensamente mais transmissível, começa a gerar apreensões. As vacinas da Pfizer têm se comprovado eficientes para prevenir mortes e internações, mas a eficácia contra as infecções caiu expressivamente. O governo começou a aplicar terceiras doses e advertiu que, caso se mostrem ineficazes, um novo lockdown pode ser inevitável.

Isso não é razão para pânico. Ainda não é clara a eficácia das outras vacinas, e outros países adotaram estratégias diferentes em relação, por exemplo, aos grupos de risco e intervalos entre as doses. Mas, enquanto a comunidade científica investiga o alcance dessa e outras variantes, as autoridades precisam projetar cenários de risco e estratégias contingenciais relacionadas a questões como testagem, replanejamento da imunização, reservas de UTIs, equipamentos e insumos médicos ou o retorno das restrições.

Mais liberdade exige mais responsabilidade. As campanhas de conscientização deveriam se intensificar na mesma proporção da flexibilização. Tão importante quanto o dever de cada um de respeitar os protocolos sanitários e medidas básicas de higiene para sufocar a epidemia é o dever de sufocar a infodemia.

No Brasil, como se sabe, o epicentro da ameaça está no Palácio do Planalto. O irremediável presidente da República segue contrariando as orientações de seu próprio Ministério da Saúde e das autoridades médicas em sua campanha de desinformação a respeito do uso de máscaras, eficácia das vacinas e propaganda de tratamentos não comprovados. Todos os dias a CPI do Senado produz pilhas de evidências da incúria e da má-fé de Jair Bolsonaro. Enquanto a população aguarda o momento em que ele e seus correligionários serão responsabilizados por seus malfeitos, é dever de todos disseminar essas evidências para desmoralizá-los e achatar a curva de desinformação.

É razoável e sadio que, na medida em que o controle sobre a peste aumenta, cada vez mais brasileiros gozam da flexibilização, retomando gradualmente suas rotinas de trabalho e lazer. Mas a guerra não terminou. Se a ordem do dia é cada vez menos “Fique em casa”, isso significa que deve ser cada vez mais “Fique alerta!”.

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