Marcha lenta no primeiro bimestre

Consumidores continuaram contidos e atividade industrial permaneceu em crise nos primeiros dois meses

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2022 | 03h00

Depois de um Natal modesto, as famílias aproveitaram as promoções do começo de ano e as vendas no varejo cresceram por dois meses consecutivos, 2,1% em janeiro e 1,1% em fevereiro. Apesar disso, o volume vendido no bimestre foi 0,1% menor que o de um ano antes. Em 12 meses, a expansão ficou em 1,7%. Com o consumidor empobrecido, as vendas físicas ficaram pouco acima da fase pré-pandemia, superando por apenas 1,2% o resultado de fevereiro de 2020. No caso do varejo ampliado – com acréscimo do comércio de veículos, seus componentes e material de construção –, as vendas no bimestre foram apenas 1,4% maiores que as de janeiro-fevereiro do ano passado.

Mesmo com dificuldades, o varejo foi o setor com melhor desempenho nos dois primeiros meses de 2022, na economia urbana. O setor de serviços, fortemente afetado na onda inicial da pandemia, atingiu em fevereiro um patamar 5,4% superior ao de fevereiro de 2020, mas com novos sinais de fraqueza. Desde agosto têm predominado as taxas mensais negativas. O resultado de janeiro foi 1,8% inferior ao de dezembro. Nova queda, de 0,2%, ocorreu em fevereiro. Ainda assim, o balanço do bimestre foi 8,4% maior que o de um ano antes, quando os danos da crise sanitária ainda eram muito visíveis.

A recuperação dos serviços é especialmente importante porque o setor é um grande gerador de empregos. Não são, no entanto, empregos tão amplamente formalizados quanto os da indústria. Empregos formais frequentemente oferecem, além de garantias definidas em lei, serviços médicos proporcionados pela empresa e participação em planos de saúde, além de treinamento e outros benefícios. Além de desemprego, o baixo dinamismo da economia tem produzido, desde a recessão de 2015-2016, más condições de trabalho, com muita informalidade e remuneração deprimida.

Pouco se poderá, no entanto, esperar da indústria, como geradora de empregos decentes, enquanto o setor permanecer estagnado ou mesmo em decadência, como tem estado nos últimos dez anos. A produção industrial diminuiu 2,2% em janeiro e cresceu apenas 0,7% em fevereiro. No bimestre, seu desempenho foi 5,8% inferior ao de igual período de 2021. Em fevereiro, houve avanços em todas as grandes categorias setoriais – bens de capital, bens intermediários, bens de consumo duráveis e bens de consumo semiduráveis e não duráveis. Em 12 meses houve expansão de 2,8%, mas o volume produzido ainda foi 2,6% menor que o de fevereiro de 2020 e 18,9% inferior ao recorde alcançado em maio de 2011.

O recuo desde aquele pico foi quase contínuo. Houve oscilações, mas a tendência de enfraquecimento do setor foi claramente dominante. Nada se fez nos últimos três anos e quase quatro meses para interromper esse retrocesso. Uma política de recuperação, de modernização e de fortalecimento do setor industrial dependerá do resultado da eleição presidencial deste ano, se houver possibilidade, é claro, de revalorização das metas, dos planos e dos programas. Tanto melhor se houver também superação de bandeiras populistas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.