MEC acéfalo

Levará anos até que os estragos causados por Bolsonaro na Educação sejam remediados

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 03h00

O Ministério da Educação (MEC) segue acéfalo. Quem nutria alguma esperança de resgate da pasta com a troca de Abraham Weintraub por Milton Ribeiro pode se contentar apenas com a fala mansa e os bons modos do atual titular da pasta, pois este é o único traço distintivo entre os dois. A visão estrita e a obediência cega ao presidente Jair Bolsonaro são rigorosamente as mesmas.

Cada entrevista que o ministro Milton Ribeiro concede, cada pronunciamento que faz, logo se convertem em lamentáveis oportunidades para a Nação constatar que suas preocupações, assim como as do antecessor de ignominiosa memória, passam ao largo das questões mais prementes para os milhões de crianças, jovens e adultos que dependem de políticas públicas de educação assertivas e bem implementadas para seu desenvolvimento pessoal e, como corolário, para a construção de um futuro mais auspicioso para o Brasil.

Em setembro do ano passado, Ribeiro afirmou em espantosa entrevista ao Estado que não constava de seu rol de atribuições cuidar de temas como o planejamento da reabertura segura das escolas durante a pandemia de covid-19 nem tampouco coordenar as ações para mitigar as enormes dificuldades que os alunos da rede pública têm para acompanhar remotamente as aulas, tanto do ponto de vista pedagógico como tecnológico.

Mais recentemente, em pronunciamento em cadeia de rádio e TV, o ministro da Educação distorceu uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), tal como faz seu chefe, para cobrar de governadores e prefeitos a reabertura das escolas, sem ter movido uma palha, dentro de suas competências constitucionais, para auxiliar os entes federativos neste importante planejamento.

Nesta semana, durante uma entrevista ao programa Sem Censura, da emissora estatal TV Brasil, o ministro Milton Ribeiro tornou a impressionar a Nação pelas razões erradas. Ao tratar das universidades federais, afirmou que os reitores “não precisam ser bolsonaristas, mas também não precisam ser esquerdistas, não podem ser lulistas”. Segundo Ribeiro, o papel dos reitores é “cuidar da educação, e ponto final”. Noves fora a platitude, o País ganharia muito se o ministro da Educação também se ocupasse de “cuidar da educação” em vez de estabelecer critérios, tirados sabe-se lá de onde, para definir quem pode ou não pode assumir a reitoria de uma universidade federal.

Ademais, ao revelar que associa a eventual afiliação político-ideológica de um reitor a todo o trabalho pedagógico e científico desenvolvido por uma universidade federal, o ministro Ribeiro demonstra um desconhecimento alarmante para alguém que ocupa o cargo de ministro da Educação.

Na entrevista à TV Brasil, o ministro também defendeu os cursos profissionalizantes de nível técnico, tidos por Ribeiro como “grandes vedetes do futuro”. As universidades, disse Ribeiro, seriam “para poucos”, haja vista que hoje “há muitos engenheiros dirigindo Uber”.

O raso pensamento do ministro da Educação, que quase tudo reduz às lides políticas, por vezes fantasiosas, é o retrato mais bem acabado da visão tacanha que o próprio presidente Bolsonaro tem da educação, em geral, e das universidades federais, em particular, ambientes tidos como fronts de uma “guerra cultural” entre direita e esquerda que, a rigor, só existe na sua cabeça e nas cabeças daqueles que aceitam apoiar ou servir a este governo flagrantemente hostil à educação, seja por ignorância, seja por interesses inconfessáveis.

A bem da verdade, é de lamentar esta pequenez do pensamento do ministro Ribeiro, mas não chega a impressionar. O que seria impressionante é haver um ministro da Educação neste governo à altura da importância e dos desafios do MEC. O abastardamento da pasta, uma das mais importantes da Esplanada, talvez seja a mais bem-sucedida “política” implementada pelo governo de Jair Bolsonaro. E uma das mais perniciosas. Levará anos até que os estragos causados na área de educação sejam remediados, para prejuízo de uma geração de brasileiros.

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