Meio ano de estagnação

Prévia do PIB indica expansão abaixo de um por cento no primeiro semestre

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2021 | 03h00

O governo continua devendo, principalmente aos milhões de desempregados, o vigoroso crescimento econômico prometido pelo ministro Paulo Guedes. Há um claro risco de calote em relação a esse compromisso. Durou pouco a reação inicial. Tendo crescido 1,2% no primeiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 0,3% no segundo, de acordo com o Monitor do PIB-FGV. Sobrou um avanço de 0,9%, em número arredondado, na primeira metade do ano. Ficou faltando um bom impulso para chegar aos 5,3% estimados para 2021 pelos economistas do mercado. Publicado mensalmente pela Fundação Getulio Vargas, o Monitor é uma prévia das contas nacionais fechadas a cada trimestre pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Dois dos três grandes setores produtivos tiveram desempenho negativo no segundo trimestre, de acordo com o estudo. A indústria recuou 1,9%, a agropecuária produziu 4,4% menos que no trimestre anterior e os serviços cresceram 0,7%. No balanço geral o PIB diminuiu 0,3% no período. As comparações com 2020 continuaram, naturalmente, mostrando grandes ganhos, mas isso se explica pelas bases muito deprimidas pelo choque inicial da pandemia.

Nesse confronto, o PIB aumentou 12,1%, com ganhos de 16,8% na indústria e de 10,8% nos serviços e perda de 0,9% na agropecuária. Nos 12 meses terminados em junho a economia cresceu 1,7% sobre a base dos 12 meses anteriores, com expansão de 4,5% na indústria, 1,4% na área rural e de 0,4% nos serviços, o setor mais afetado pelo distanciamento social e por outras medidas de prevenção do contágio.

“Ainda há um longo caminho para a retomada mais robusta da economia”, disse o pesquisador Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB, ao comentar os últimos dados. O recuo de 0,3% no período de abril a junho evidenciou, segundo ele, ter havido “certo otimismo com o resultado do primeiro trimestre”.

Esse otimismo pode ter-se refletido nas projeções do mercado para este ano, mas há sinais de mudança nas expectativas. Há um mês a mediana do crescimento projetado para 2021 mantém-se, com pequena oscilação, na vizinhança de 5,3%. A expansão do PIB estimada para 2022 caiu em quatro semanas, passando de 2,1% para 2%. Algumas instituições já trabalham com números abaixo de 2%. Para 2023 e 2024 o mercado tem mantido a taxa de 2,5%, considerada representativa do potencial de crescimento do Brasil. Mas nem essa estimativa, apesar de modesta, é aceita por alguns analistas.

Não há por que supor um aumento recente desse potencial. O investimento em capital fixo – máquinas, equipamentos e obras – aumentou 13,3% nos 12 meses até junho. Na comparação do segundo trimestre deste ano com o segundo de 2020 aparece um aumento de 35,2% nesse item. Mas a taxa de investimento permanece modesta. Apesar desses números impressionantes, atingiu apenas um valor correspondente a 19,3% do PIB, no trimestre abril-junho de 2021.

Essa taxa é superior à média a partir de janeiro de 2000 (18%), mas ainda é muito baixa. Neste século, a relação investimento/PIB alcançou 20% em vários anos e ocasionalmente superou esse nível, mas foi sempre insuficiente para dar à economia brasileira um dinamismo parecido com o de outros países emergentes. Durante anos o governo buscou a meta de 24%, mas sem atingi-la.

O investimento em capital fixo tem sido insuficiente até para compensar a depreciação acumulada, principalmente na infraestrutura. Além de insuficiente e desatualizada, boa parte dessa infraestrutura é decadente, como se observa, sem dificuldade, na malha de transporte. Com sua capacidade de poupar e de investir muito reduzida, o setor público tem dependido cada vez mais do capital privado para aplicar recursos em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, geração e transmissão de energia e sistemas de saneamento. No atual mandato federal, pouco se progrediu nesse trabalho por meio de privatizações e de licitações. Dinheiro nem sempre é o único recurso escasso. O principal gargalo está, com frequência, na capacidade administrativa.

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