Menos folia, mais saúde

O cancelamento do carnaval de rua é necessário, mas não basta. Será preciso redobrar fiscalização de festejos privados

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2022 | 03h00

Cerca de metade das capitais brasileiras já cancelou o carnaval de rua, entre elas Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, além de outros destinos tradicionais, como Olinda. Por penoso que seja o revés para a população e para o setor do turismo, combalido por dois anos de restrições, a medida é necessária para atravessar com segurança a nova onda da variante Ômicron e garantir o retorno à normalidade no momento oportuno.

É importante ter claro, contudo, que o mero cancelamento da folia nas ruas não basta. O réveillon serve de alerta. Em diversos destinos populares houve aumento expressivo de casos, mesmo naqueles, como Rio ou São Paulo, que cancelaram as festas nas ruas.

Estudos preliminares sugerem que, apesar de altamente contagiosa, a Ômicron causa sintomas bem mais leves do que variantes como a Delta. Mas o que em princípio é uma boa notícia pode ser revertido a favor do vírus, se faltar prudência às autoridades e a certos segmentos da população. As chances de pessoas assintomáticas circulando incautamente são maiores. O risco é tanto maior na medida em que a onda da Ômicron se mescla a um surto de influenza. Por isso, é crucial investir ostensivamente em testagem.

Há ainda o perigo de que os festejos se transfiram para locais fechados. Isso demandará protocolos claros exigindo limitações de público e comprovantes de vacinação e testagem negativa. É preciso redobrar o rigor da fiscalização. Aglomerações não autorizadas devem ser severamente punidas.

Para os municípios que insistirem em manter o carnaval de rua o risco aumenta exponencialmente, dada a tendência de que muitos foliões inconformados com o cancelamento em suas cidades se desloquem para eles. A pretexto de celebrar a alegria de viver, essas pessoas podem estar condenando muitos à morte. Elas deveriam, ao contrário, se inspirar em alguns dos principais protagonistas da festa do povo.

Em mais uma mostra de civilidade da sociedade, apesar das investidas negacionistas do próprio presidente da República, diversos artistas, como Daniela Mercury, Preta Gil ou Tiago Abravanel, já tinham se antecipado ao poder público anunciando o cancelamento de seus blocos. Ainda em dezembro, a Ambev, principal patrocinadora do carnaval, alertou: “Somos apaixonados pelo carnaval, mas o cenário exige ainda muita cautela. A saúde deve vir sempre em primeiro lugar”.

Quando a Prefeitura de São Paulo oficializou o cancelamento, ele já não era, na prática, necessário. Mesmo que as festas estivessem autorizadas, as ruas estariam vazias: associações representativas de dezenas de blocos já haviam se manifestado pelo cancelamento dos cortejos.

Ao anunciar o cancelamento já em dezembro, Rui Costa, governador da Bahia, um dos grandes celeiros carnavalescos do País, resumiu o sentimento geral: “Não faz sentido nenhum a gente jogar todo o esforço fora. Comerciantes fizeram esforço, trabalhadores fizeram esforço, a equipe de saúde trabalhou loucamente durante esse período (da pandemia). Perdemos muita gente. E não queremos voltar a perder”.

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