Mentira não é ‘outra versão’ da história

Há uma tentativa de conferir à mentira um status de legitimidade. Os fatos importam. Desprezá-los é abrir as portas para as várias modalidades de autoritarismo

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2022 | 03h00

Em sua apresentação na Brazil Conference, evento organizado por estudantes brasileiros em Boston (EUA), o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), falou, entre outros temas, dos desafios da verdade em tempos de desinformação. “Precisamos restabelecer o poder da verdade possível e plural dentro de uma sociedade aberta. Precisamos enfrentar esse mundo da desinformação, da mentira deliberada e das teorias conspiratórias”, disse.

Certamente, esse é um dos desafios mais instigantes dos dias de hoje. A mentira não apenas ganhou, com as redes sociais, novos meios de difusão, como vem obtendo, em muitos ambientes e grupos sociais, uma espécie de carta de validade. Perante a tentativa de relativizar a mentira, Luís Roberto Barroso citou a frase de Madeleine Albright, ex-secretária de Estado dos EUA, falecida no mês passado: “A mentira não é uma outra versão da história. A mentira é só uma mentira”.

O compromisso com a verdade factual tem implicações em muitos âmbitos da vida social. Na esfera política, ao negar os fatos, corre-se o risco de tolerar ou mesmo promover retrocessos. O ministro do STF lembrou alguns fatos da história recente brasileira. “Houve uma ditadura militar no Brasil. Houve fechamento do Congresso, cassação de mandatos, aposentadoria compulsória de professores, pessoas foram para o exílio, tortura e censura”, disse.

Reconhecer a existência desses abusos e violências é o caminho para impedir o seu retorno. Não é possível romantizar a ditadura, como querem alguns. Um regime ditatorial é incompatível com o ambiente de liberdade e de respeito às garantias fundamentais.

Luís Roberto Barroso recordou ainda outro acontecimento da história recente do País que vem sendo cada vez mais negado, como se fosse mera perseguição política. “A corrupção esteve presente na vida pública brasileira de forma contínua, inclusive de maneira graúda, entre 2003 e 2010. Esse é um fato”, disse Barroso. Infelizmente, verifica-se todo um esforço, verdadeira campanha de desinformação, para negar ou relativizar a corrupção ocorrida enquanto o PT esteve no governo federal. Segundo o discurso lulopetista, o petrolão seria o resultado de um conluio do Ministério Público com o governo americano.

Tal é o descompromisso com os fatos que Lula já disse, em entrevista a um jornal chinês, a seguinte pérola: “Provamos que a promotoria (da Lava Jato) estava servindo ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos naquela época, e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos pretendia minar nossas leis para regulamentar a Petrobras”. Não contente em inventar uma teoria da conspiração, Lula diz que ela já foi provada.

O abuso da linguagem é uma das formas mais comuns de mentira, e não está restrito ao campo da esquerda. Por exemplo, nos últimos anos, Jair Bolsonaro falou várias vezes que tinha “provas” de fraudes nas urnas eletrônicas e prometeu apresentá-las ao País. Nunca cumpriu sua promessa. No dia em que faria a tal demonstração, trouxe apenas teorias antigas, já devidamente refutadas.

A campanha bolsonarista contra a confiança no sistema de votação eletrônica explicita um dos aspectos da desinformação na política. O descaso com os fatos não é mera falta de rigor lógico, não é simples descuido no raciocínio. É deliberada tática de agressão ao regime democrático.

Na apresentação, o ministro do STF lembrou também os efeitos dramáticos da falta de compromisso com a verdade factual na pandemia. “Houve uma posição negacionista no Brasil em relação à pandemia. Sem a adoção das medidas científicas recomendadas, morreu mais gente do que precisava. É um fato”, disse Barroso. A mentira não agride apenas a democracia. Ela pode matar pessoas. Por exemplo, a desinformação contra as vacinas está fazendo ressurgir doenças que estavam superadas ou controladas.

Há liberdade de expressão e de opinião. Mas a ditadura não é caminho de liberdade. Teve muita corrupção nos governos do PT. A covid não é uma gripezinha. Os fatos importam. Negá-los tem um alto preço.

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