Mídias sociais e desinformação

Apesar dos riscos de interferências de potências estrangeiras, como Rússia, China e Irã, a maior parte da desinformação nos EUA tem origem doméstica

Notas e informações, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2019 | 03h00

Campanhas de desinformação existem desde que existe a política. A diferença hoje é o potencial de viralização das fraudes nas redes sociais. O quadro será agravado tão logo se massifiquem os softwares capazes de produzir em segundos, sem custo, em qualquer dispositivo pessoal, aquilo que ainda custa milhões aos estúdios cinematográficos: vídeos falsos de pessoas reais – os chamados deepfakes. Riscos como esse são objeto de um estudo do Centro para Negócios e Direitos Humanos da Universidade de Nova York, Desinformação e a Eleição de 2020, focado nos Estados Unidos, mas cujo resultado pode ser generalizado para outros sistemas eleitorais.

Como disse em entrevista ao Estado o responsável pelo estudo, Paul Barrett, o Instagram, apesar de não ter recebido tanta atenção quanto Facebook, Twitter e YouTube como veículo de desinformação, teve um papel decisivo nas últimas eleições presidenciais e terá ainda mais nas próximas. Sendo uma rede de compartilhamento de imagens é o ambiente ideal para a proliferação de memes – imagens combinadas com algum texto de impacto –, os quais são, por sua vez, veículos populares para citações falsas. Em breve milhões de pessoas poderão receber – às vésperas de uma eleição, por exemplo – vídeos deepfakes de políticos falando aberrações ou praticando obscenidades e crimes.

Outra plataforma preocupante, como se viu nas eleições no Brasil e na Índia, é o WhatsApp, por duas razões. Primeira, o serviço é programado para comunicar conteúdos de “ponta a ponta”, ou seja de um usuário a outro, sem que os administradores do sistema controlem as interlocuções. “Isso é excelente para a privacidade, mas também é uma receita para a delinquência”, diz o estudo. Segunda, o interlocutor tende instintivamente a dar mais credibilidade aos conteúdos recebidos diretamente de pessoas familiares.

Apesar dos riscos de interferências de potências estrangeiras, como Rússia, China e Irã, a maior parte da desinformação nos EUA tem origem doméstica. São conteúdos mais difusos e menos distinguíveis da expressão política ordinária, protegida pela Primeira Emenda da Constituição norte-americana. Uma peça-chave nesse xadrez são as empresas clandestinas que vendem desinformação, e podem ser contratadas em locais de alto desenvolvimento cibernético, como Israel ou Rússia.

As companhias de mídia social têm investido em programas de Inteligência Artificial a fim de excluir contas falsas, mas em geral não removem conteúdos falsos, baseadas na noção de que seus funcionários não devem ser “árbitros da verdade”. Essa atitude, contudo, tem sido revista em casos excepcionais. Em junho, o YouTube anunciou que começaria a excluir conteúdos enganosos, como vídeos que negam atrocidades bem documentadas tais como o Holocausto. A recomendação do estudo é que as mídias sociais não deveriam simplesmente reduzir a circulação de materiais inequivocamente fraudulentos, como fazem, mas, especialmente no campo político, removê-los por completo, confinando-os em um arquivo de conteúdos falsos, acessível publicamente, mas não compartilhável.

“O resultado dessa pesquisa e da avaliação governamental parece ser de que algumas medidas antidesinformação podem estar funcionando”, conclui o relatório. Apesar disso, o diagnóstico dá menos razões para alívio do que para precaução. O estudo apela às mídias sociais para que invistam em campanhas de letramento digital a fim de educar os usuários a lidar com fraudes. A guerra à desinformação precisa ser travada sem trégua por essas companhias, não só em nome do interesse comum, mas do seu próprio: ela pode restaurar a sua credibilidade arranhada e frear os anseios por legislações draconianas. Ademais, a publicidade remunera essas mídias pela atenção dos usuários. E os usuários darão atenção se confiarem na sua fonte. “Construir a confiança”, diz o estudo, “deveria ser uma parte central do plano de negócios de qualquer mídia social.” Essa construção começa no combate à desinformação.

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