Ministério da Propaganda

Nova pasta se prestará a atender prioridades mais urgentes do presidente Bolsonaro

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2020 | 03h00

O presidente Jair Bolsonaro decidiu recriar o Ministério das Comunicações, mas teria sido melhor chamá-lo logo de Ministério da Propaganda. “Creio ser consenso nossa falha na comunicação”, disse o próprio presidente ao justificar a medida. Ou seja, o futuro Ministério das Comunicações, a julgar pelo que disse Bolsonaro, não lidará prioritariamente com o sistema de comunicações do País, mas com a propaganda das realizações do governo – que, no entender do presidente, está deixando a desejar.

A nova pasta vai incorporar a Secretaria de Comunicação (Secom), responsável pela propaganda oficial do governo e que hoje está subordinada ao general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo. O secretário Fábio Wajngarten, atual titular da Secom, será o secretário executivo das Comunicações. O presidente, portanto, não estava descontente com o trabalho de Wajngarten – que frequentemente hostiliza a imprensa nas redes sociais –, pois ele terá mais poder e recursos para suas diatribes.

Mas o novo Ministério se prestará também a atender a outras prioridades de Bolsonaro, talvez mais urgentes. A mais óbvia é a ampliação de sua base no Congresso para evitar o impeachment. Por isso o cargo de ministro das Comunicações foi entregue ao deputado potiguar Fábio Faria, que é do PSD, partido de Gilberto Kassab. Bolsonaro jura que sua escolha foi “pessoal”, e não do cacique do PSD, e portanto não envolveu qualquer promessa de apoio. Violentando a inteligência de seus compatriotas, o presidente quer realmente fazer o distinto público acreditar que seu Ministério não está sendo loteado entre partidos conhecidos por farejar presidentes fracos para lhes vender votos em troca de prebendas.

No caso das Comunicações, trata-se de um prêmio e tanto. Além da Secom, a pasta terá os Correios, a Empresa Brasileira de Comunicação e a Telebrás – isto é, um extenso cardápio de cargos a distribuir e de concessões a administrar. Será responsável direta pelo desenho de políticas públicas para os serviços de radiodifusão e de telecomunicações.

Para tomar conta de todo esse aparato, o presidente escolheu ninguém menos que um genro do empresário Silvio Santos, dono da emissora de TV SBT. O próprio Bolsonaro, numa sinceridade comovente, disse que “vamos ter alguém (no Ministério) que não é profissional do setor, mas tem conhecimento até pela vida que ele tem junto à família do Silvio Santos”. Ou seja, o “conhecimento” do novo ministro, Fábio Faria, é sua relação familiar com um dos empresários de comunicação mais próximos do presidente Bolsonaro.

Eis então que sobre o novo ministro já pairam dúvidas éticas relevantes. Consta que o deputado Fábio Faria mantém bom trânsito com lideranças de vários partidos e que isso, mais uma vez nas palavras do próprio presidente Bolsonaro, teria sido decisivo para sua escolha. “Eu nem lembro qual o partido dele. É um deputado federal. Que tem um bom relacionamento com todos. Ele entrou em contato ali com várias lideranças partidárias. (...) A aceitação foi excepcional, uma pessoa que sabe se relacionar, e acho que vai dar conta do recado”.

É bom saber que um ministro consegue “se relacionar” com “várias lideranças políticas”, mas é difícil entender de que maneira essa habilidade qualifica alguém a administrar o sistema de comunicação do País – a não ser que o trabalho do novo ministro não seja apenas o de administrar o sistema, mas também o de franquear o Ministério e seus muitos e apetitosos cargos a políticos interessados em parasitar um cambaleante governo.

Seja como for, o novo Ministério da Propaganda terá de trabalhar duro para mudar a imagem de um presidente que prometeu solenemente governar com apenas 15 Ministérios e que terá 23 – ou 24, se for recriado o Ministério da Segurança Pública, como se aventa em Brasília. Em breve, a depender da profundidade da crise e de seu isolamento político, Bolsonaro talvez chegue aos 39 Ministérios de Dilma Rousseff, muitos dos quais criados para serem distribuídos a partidos fisiológicos – os mesmos que hoje negociam com Bolsonaro – em troca da salvação do mandato da presidente petista. Como se sabe, foi em vão.

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