Mudança climática demanda adaptação

Mitigar aquecimento global é prioritário para humanidade. Para salvar humanos, aqui e agora, é urgente se adaptar a ele

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 03h00

Um estudo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) comprovou o aumento constante das temperaturas e de chuvas extremas nos últimos 90 anos. Em São Paulo, por exemplo, os temporais quase duplicaram nas últimas três décadas e em certos meses as temperaturas chegaram a subir até 2,7 °C. Os impactos são letais. Há alguns dias, um novo temporal em Petrópolis causou pelo menos cinco mortes, que vieram a se somar às 233 do mês passado. Segundo o Inmet, as causas podem estar associadas à variabilidade natural e, mais provavelmente, a fatores antropogênicos, como o aquecimento global e a urbanização.

Em relação às causas naturais, nada a fazer. Quanto ao aquecimento global, há muito a fazer. A mitigação das emissões do dióxido de carbono, sobretudo por meio da taxação do carbono e inovações em energia verde, é literalmente vital para o planeta. Mas a transição energética, além de envolver uma complexa coordenação global, exige um equilíbrio delicado entre benefícios ambientais e custos sociais (considere-se, por exemplo, o impacto social da alta do petróleo com a guerra na Ucrânia). Além disso, ela não erradicará completamente as emissões e seus efeitos são de longo prazo. Quaisquer que sejam as causas das mudanças climáticas, suas consequências devem ser enfrentadas imediatamente com medidas de adaptação.

Alguns ambientalistas tendem a estigmatizar políticas de adaptação como uma distração às medidas de redução de CO2. Mas, ao contrário, elas são complementares, e devem ser colocadas no coração das respostas climáticas. Não à toa, o Painel de Mudanças Climáticas da ONU tem dado crescente destaque às medidas de adaptação. Para estimular políticas climáticas, ativistas costumam apelar ao pânico, enfatizando a multiplicação e intensificação de catástrofes naturais. São alertas importantes, mas seria encorajador se fossem mais acompanhados de propostas adaptativas.

A humanidade tem notáveis capacidades de adaptação. Há milênios pessoas vivem em extremos glaciais ou desérticos. Há um século, quase meio milhão de pessoas morriam anualmente por tempestades, enchentes, queimadas ou temperaturas extremas. Hoje o número é 96% menor. As cidades, em especial, precisam fortalecer infraestruturas como sistemas de drenagem, abastecimento de água, coleta de esgoto ou redes de transmissão de energia. A médio prazo, “cidades verdes” são a melhor resposta de adaptação ao aquecimento global. Mais cobertura vegetal implica mais absorção da água e temperaturas mais baixas, além de permitir dispensar infraestruturas “cinzas” feias, caras e intensivas em emissões de CO2.

Em relação a enchentes e deslizamentos, a curto prazo é prioritário investir em monitoramento, alertas, evacuações e abrigos. Porém estes são paliativos. A médio prazo, mas em regime de urgência permanente, as três esferas da administração pública precisam se engajar em um plano de reforma urbana que promova a desocupação de áreas de risco e uma regularização imobiliária apta a garantir infraestrutura para áreas vulneráveis. 

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