Muito estrago para superar

Os negócios voltaram a crescer a partir de 2017, mas a atividade permanece bem abaixo de onde estava no começo da crise

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 04h00

A recessão, obra-prima da presidente Dilma Rousseff, continua marcando o dia a dia dos brasileiros mais de dois anos depois de iniciada a recuperação. O desemprego é o sinal mais sensível de uma economia muito danificada, mas para avaliar mais claramente o estrago é preciso recorrer a outros dados. Os negócios voltaram a crescer a partir de 2017, mas a atividade permanece bem abaixo de onde estava no começo da crise. A retomada é a mais lenta de toda a experiência de recessões em mais de três décadas e meia, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). No episódio de 1981, o nível de atividade dos primeiros três meses de recessão foi retomado em 13 trimestres. No de 1989, em 16. No de 2014, a economia ainda se arrasta no caminho de retorno depois de 18 trimestres, sem tocar de novo o trecho inicial da ladeira. Se o Produto Interno Bruto (PIB) crescer entre 2,50% e 3% neste ano, como indicam as projeções, ainda haverá um trecho a percorrer.

Esses dados aparecem no Monitor do PIB, o mais amplo e detalhado balanço mensal da economia brasileira, produzido pela FGV. Esse trabalho tem sido uma boa antecipação das contas nacionais publicadas a cada trimestre pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A nova atualização, com os números do PIB do quarto trimestre e, portanto, de todo o ano passado, deve ser divulgada no começo de março. Será surpresa se os dados forem muito diferentes daqueles do Monitor.

Segundo o balanço da FGV, o PIB cresceu 1,1% em 2018. O número é praticamente o mesmo do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), 1,15%. Mas o relatório é muito mais detalhado, porque o BC se limita a publicar uma série de índices com o resultado geral. O Monitor mostra estagnação nos três meses finais. O crescimento foi nulo em relação ao terceiro trimestre de 2018, na série com ajuste sazonal, e de 1% em relação ao mesmo período do ano anterior, na série sem ajuste.

O avanço anual de 1,1%, o mesmo contabilizado em 2017, reflete o crescimento de quase todos os setores e segmentos da produção. Só a construção (-2,4%) e os serviços de informação (-0,1%) tiveram desempenho inferior ao de um ano antes. No conjunto, o resultado foi bem inferior ao estimado no começo de 2018, quando as projeções apontavam expansão na faixa de 2,60% a 2,70%.

A expansão foi prejudicada por entraves como a incerteza eleitoral, a insegurança quanto à política econômica do novo governo e a paralisação do transporte rodoviário em maio, mas o fraco desempenho refletiu também o escasso potencial da economia brasileira. A produtividade total foi a mais baixa desde 2009 e, portanto, bem inferior à de 2013, pico da série iniciada em 2001.

Como o investimento em máquinas, equipamentos e construções continuou muito modesto, o potencial produtivo deve permanecer baixo por um bom tempo. O investimento, medido pela formação bruta de capital fixo, aumentou 3,7% em 2018, puxado pela alta de 13,2% nas compras de máquinas e equipamentos (a construção foi um desastre).

Mas, apesar do avanço registrado em 12 meses, o total investido correspondeu a apenas 15,80% do PIB. Desde 2001 só houve duas taxas inferiores a essa, 15,70% em 2003 e 15,4% em 2017. A mais alta do período ocorreu em 2013, quando chegou a 20,70% do PIB.

Mesmo essa taxa é muito inferior à necessária para garantir um crescimento econômico de pelo menos 4% ao ano, mais parecido com o desempenho de outros países emergentes. O País precisaria investir pelo menos uns 24% do PIB para atingir aquele potencial de produção e de expansão econômica. Nem sequer se trata de crescer 4% durante um ano ou dois, mas de ter condições de manter esse ritmo por longo período sem criar desajustes. Por enquanto, o potencial de expansão deve estar na faixa de 2% a 2,50%. Com reformas e confiança de empresários e investidores, pode-se chegar a um crescimento de 3%. Nenhuma surpresa, portanto: a lição de casa tem de começar mesmo pela reforma da Previdência. E esse será só o primeiro passo.

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