Multilateralismo e cooperação

Fórum festeja derrota do trumpismo e de ideias ainda seguidas por Jair Bolsonaro.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 03h00

Esta é a hora do multilateralismo – para enfrentar a covid-19, garantir vacinas para todo mundo, reativar a economia, garantir um crescimento mais equilibrado, mais inclusivo e mais compatível com a preservação do meio ambiente. É hora de enfrentar, com urgência, alguns dos piores legados da crise, como o aumento da desigualdade e do número de pessoas em pobreza absoluta. Esta agenda resume as principais mensagens de chefes de governo, diretores de entidades internacionais, acadêmicos, políticos e empresários participantes da reunião do Fórum Econômico Mundial. Realizado normalmente em Davos, nas montanhas suíças, o encontro deste ano ocorre de maneira virtual, porque a pandemia continua, novos surtos da doença têm ocorrido e novas cepas de coronavírus têm sido identificadas em vários países.

A primeira grande mensagem a favor do multilateralismo, da cooperação e da coexistência sem guerra ideológica foi transmitida, logo no começo do evento, pelo presidente da China, Xi Jinping. Seu discurso retomou, no cenário da nova crise, temas do pronunciamento apresentado há quatro anos, em janeiro de 2017, poucos dias antes da posse, em Washington, do presidente Donald Trump.

Sem mencionar o nome do recém-eleito presidente americano, o líder chinês defendeu um sistema global baseado em regras negociadas, aprovadas por meio de acordos e aplicadas por instituições com ampla participação de países. Esse discurso foi uma ampla rejeição das políticas pregadas durante a campanha eleitoral pelo ex-presidente da maior potência econômica e militar e baseadas, essencialmente, na ideia de dominação do mais forte.

O novo discurso do presidente chinês, igualmente sem citação do nome do ex-ocupante da Casa Branca, soou como um epitáfio do trumpismo e como celebração de tempos melhores para o sistema internacional. Não houve, também, menção aos seguidores de Trump, como o presidente Jair Bolsonaro, ausente, mais uma vez, da reunião do Fórum. Em sua única participação, em 2019, ele foi incapaz de preencher o tempo reservado para seu discurso e mais tarde cometeu uma grave quebra de protocolo, ao deixar de comparecer a uma entrevista marcada oficialmente com a imprensa internacional.

A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, foi mais explícita, ao saudar a eleição do presidente Joe Biden e sua decisão de reintegrar os Estados Unidos à Organização Mundial da Saúde (OMS). Em seguida, ao defender o multilateralismo, ela falou sobre a importância da Organização Mundial do Comércio (OMC) e sobre a urgência de atualizar as normas comerciais levando em conta as novas condições de trabalho, a digitalização, a defesa ambiental e o controle dos monopólios, numa referência aos grupos dominantes da tecnologia da informação e da comunicação.

O retorno americano à cooperação internacional foi saudado também pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. “Estou deliciada”, afirmou, “com o reingresso dos Estados Unidos no Acordo de Paris.” A pauta ambiental e a construção de uma economia mais verde foram temas importantes desse pronunciamento. Von der Leyen mencionou, como exemplo das metas da União Europeia, os planos de renovação de 35 milhões de casas, em busca de maior eficiência energética, e de mudanças na mobilidade urbana, com descarbonização de frotas de ônibus.

Mais do que ausente da reunião anual do Fórum, o presidente Jair Bolsonaro está distante das preocupações e das pautas dominantes nesse encontro. Preservação do ambiente, parte indispensável de qualquer agenda econômica internacional, continua fora de seu repertório, assim como as ideias de multilateralismo e de cooperação global contra a pandemia e pela retomada econômica verde e inclusiva. Em dezembro, Bolsonaro anunciou o “finalzinho da pandemia”. Em janeiro, falou contra a vacina, só mudando o discurso ocasionalmente. A tragédia de Manaus tem a marca de um governo central propagandista da cloroquina e avesso às orientações da ciência. Davos fica muito longe do mundo bolsonariano.

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