Na conta otimista, juros de 12,75%

Projeções indicam fim de mandato de Bolsonaro com inflação alta, crédito arrochado e economia em ritmo lento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2022 | 03h05

Ainda assolado pela inflação, o Brasil chegará a dezembro com juros básicos de 13%, segundo projeção do mercado. Apesar do arrocho do crédito, os preços ao consumidor ainda terão acumulado uma alta anual de 6,59%, bem superior ao teto da meta oficial, fixado em 5%. Embora reconheça o quadro complexo e cheio de riscos, o Copom, Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC), avalia a taxa básica de 12,75% como suficiente para seus propósitos. A agenda inclui duas tarefas principais até o fim de 2023: fazer a inflação convergir para a meta de 3% e ancorar de novo as expectativas do mercado, segundo a ata da última reunião do Copom, formado por dirigentes do BC. A reunião ocorreu na semana passada.

Se tudo correr segundo as previsões, só haverá mais uma elevação dos juros básicos, de 11,75% para 12,75%, na sessão do Comitê prevista para o começo de maio. Com mais esse aumento de 1 ponto porcentual, igual ao anterior, o aperto será suficiente para corrigir a alta de preços até o fim de 2023, de acordo com o Copom. Não há, no entanto, compromisso de encerrar em 12,75% a alta de juros. Se os preços evoluírem de modo mais desfavorável, o ajuste monetário poderá ser mais severo, como é claramente indicado na ata.

Uma evolução pior que a prevista poderá ocorrer, por exemplo, se os efeitos da guerra na Ucrânia, como o aumento das cotações do petróleo e de outras matérias-primas, forem mais desafiantes do que foram até agora. O quadro também poderá ficar mais complicado, segundo avaliação do Copom, se as contas federais ficarem mais desajustadas e a dívida pública se tornar mais pesada.

Esses perigos estão claramente associados – embora a ata, diplomaticamente, omita esses detalhes – aos interesses eleitorais do presidente Jair Bolsonaro e às ambições de seus aliados, como os parlamentares do Centrão.

Polidamente, os autores da ata usam linguagem menos crua, mas bastante clara: “A incerteza em relação ao arcabouço fiscal mantém elevado o risco de desancoragem das expectativas de inflação”. Mas esse risco, segundo se acrescenta, já está parcialmente incorporado nas expectativas consideradas pelo Comitê.

De toda forma, o cenário justifica, de acordo com o Copom, as medidas previstas. Com isso, o ciclo de aperto deverá ser “ainda mais contracionista” do que vinha sendo. Não se menciona uma estimativa de crescimento econômico, mas as projeções do mercado, antes da reunião do Comitê, já eram sombrias.

No último boletim Focus, a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) estimada para este ano chegou a 0,50%. Quatro semanas antes ainda se calculava uma taxa de 0,30%, mas, apesar da melhora, as expectativas continuaram muito ruins. Elaborado pelo BC, esse boletim resume projeções do setor financeiro e de consultorias. Em sentido inverso, mas aproximando-se do mercado, o Ministério da Economia reduziu de 2,10% para 1,50% sua previsão de aumento do PIB. Oficiais ou de mercado, todos os números apontam um enorme desarranjo econômico neste fim de mandato presidencial. 

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