Na inflação, Brasil está por cima

Alta de preços no País supera de longe a média observada em grandes economias

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 03h00

Com o surto global de inflação, puxado principalmente pelos preços dos alimentos e da energia, o Brasil mais uma vez se destaca de forma negativa. O País é um grande produtor e exportador de comida e ninguém pode falar de escassez de produtos nas feiras e nos supermercados. No entanto, os aumentos enfrentados pelo consumidor brasileiro são muito maiores que os observados na maior parte do mundo emergente e em desenvolvimento – e muito superiores àqueles contabilizados nas áreas mais avançadas da Europa, da América do Norte e da Ásia. Além disso, essa diferença poderá ainda aumentar neste ano e no próximo, se os fatos confirmarem as estimativas correntes.

O contraste entre a situação brasileira e a de dezenas de outros países fica bem claro, mais uma vez, num relatório recém-publicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), hoje formada por 38 membros e, até há poucos meses, por 37. Nesse conjunto, a inflação acumulada em 12 meses passou de 3,3% em abril para 3,8% em maio. No Grupo dos 20 (G-20), integrado pelas 20 maiores economias, o avanço foi de 3,8% para 4,3%. No Brasil, a alta anual de preços saltou de 6,8% para 8,1% na mesma comparação.

Só um país-membro do G-20, a Argentina, superou o Brasil nesse quesito, com a inflação acumulada saindo de 46,3% em abril para 48,8% em maio. Mas o desajuste argentino, com graves dificuldades fiscais, problemas com a dívida externa, inflação muito alta e economia emperrada, já se prolonga há vários anos e segue sem solução previsível.

Também na maior economia do mundo a recuperação econômica veio acompanhada de alta de preços. Nos Estados Unidos, a inflação anual subiu de 4,2% em abril para 5% em maio. Mas esse quadro foi descrito como passageiro pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Com essa avaliação, parece descartado, pelo resto do ano, o risco de um aumento dos juros básicos. Esse aumento, o remédio mais provável contra a alta de preços, mexeria com o mercado financeiro internacional, afetaria o câmbio e poderia produzir um novo aumento do dólar em relação ao real, com efeitos sobre os preços no Brasil.

Na China, segunda maior potência econômica, os preços ao consumidor continuam muito bem comportados, com elevação de apenas 1,3% nos 12 meses até maio. Até abril a variação havia ficado em 0,9%, apesar da forte reativação da economia chinesa desde o segundo trimestre do ano passado. Na Índia, outro grande emergente asiático, a alta anual chegou a 5,3% em maio. No Japão, terceira maior economia do mundo, a inflação, normalmente muito baixa, recuou em 12 meses e a variação acumulada até maio chegou a -0,2%.

A inflação é um complemento importante no quadro das diferenças, quando se confrontam as grandes economias – avançadas e emergentes – com a brasileira. Quando chegou a pandemia, o desemprego no Brasil era o dobro, aproximadamente, da média da OCDE. Também superava o observado no G-20. Com a reativação econômica, as condições de emprego também começaram a se recuperar. Podem ter continuado piores que antes da crise, mas os piores indicadores foram superados. No Brasil, o desemprego continuou a crescer em 2021.

No caso brasileiro, a inflação agravou os problemas do enorme contingente dos desempregados, dos subutilizados e, de modo especialmente dramático, daqueles desprovidos, durante meses, até do auxílio emergencial. Esse quadro já seria muito feio se os problemas sanitários fossem menos graves. Mas a pandemia continuou devastadora, no primeiro semestre, enquanto a vacinação avançava devagar e o governo central confirmava sua inépcia para enfrentar – e até para reconhecer – a maior crise de saúde em um século.

Quanto à inflação, as expectativas continuam sombrias. Em 2021 os preços ao consumidor devem subir 6,07%, segundo projeção do mercado, superando o centro da meta (3,75%) e o limite de tolerância (5,25%). A inflação projetada para o próximo ano, de 3,77%, também ficará acima do centro – e muito acima do bem-estar das famílias.

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