Negacionismo como critério

Ao revogar condecorações de cientistas respeitados, Bolsonaro deixou claro que só respeita quem aplaude o charlatanismo

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2021 | 03h00

Ao excluir dois respeitados cientistas brasileiros da lista dos pesquisadores que foram agraciados com condecorações da Ordem Nacional do Mérito Científico, Marcus Guimarães Lacerda e Adele Schwartz Benzaken, apenas por não endossarem as bandeiras políticas do governo na área da saúde pública, o presidente Jair Bolsonaro foi muito além da grosseria e do primarismo que sempre o caracterizaram. 

Acima de tudo, revelou a dimensão do inconsequente negacionismo científico de seu governo, o que ocorreu no mesmo dia em que o País totalizou mais de 610 mil mortes causadas pela pandemia. Especialista em infectologia, Lacerda desenvolveu pesquisas que revelaram não haver benefícios no uso de altas doses de cloroquina em pacientes graves de covid-19. Especialista em HIV e aids, consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS) e premiada pela Unesco e pelo Unicef, Benzaken formulou políticas para prevenção, vigilância e controle de infecções sexualmente transmissíveis e preparou uma cartilha voltada para a saúde de homens transexuais.

Com essa iniciativa desastrosa, do ponto de vista da liturgia de seu cargo, e torpe, do ponto de vista moral, Bolsonaro também acabou gerando uma fortíssima reação por parte da comunidade científica. Ela tem tudo para ser mais uma prova arrasadora para fundamentar as contundentes acusações feitas a ele pelo relatório da CPI da Covid-19, recém-concluída pelo Senado.

Em desagravo a Lacerda e Benzaken, que foram excluídos da Ordem Nacional do Mérito Científico dias após seus nomes terem sido anunciados por um decreto assinado pelo próprio Bolsonaro como agraciados com honrarias oficiais “na classe de comendador”, por seus “conhecimentos sobre saúde pública”, mais de 20 cientistas também recusaram a homenagem que lhes seria prestada. Em carta pública enviada ao Palácio do Planalto, afirmaram que, apesar de as condecorações da Ordem Nacional do Mérito Científico serem as mais importantes na vida acadêmica do País, eles não poderiam aceitá-las por estarem sendo concedidas por um governo que vem boicotando reiteradamente as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva. 

“Enquanto cientistas, não compactuamos com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes federais para a ciência e tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade científica brasileira nas últimas décadas”, declararam os cientistas, com o apoio de entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Imunologia, e de organismos vinculados à Organização das Nações Unidas (ONU). 

Com esse duro protesto, que desmoraliza ainda mais a imagem do País no exterior, a comunidade científica brasileira desnudou a principal diretriz de Bolsonaro em matéria de saúde pública: em seu governo, não há lugar para quem não faz parte do charlatanismo por ele estimulado nem para quem se recusa a tocar bumbo para aplaudir seu negacionismo.l

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