Negligência ante a mudança climática

Enquanto as três esferas de governo não derem importância às mudanças no clima, populações inteiras seguirão sofrendo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2022 | 03h00

É a lei natural: o verão é uma estação chuvosa em países tropicais como o Brasil. Antinaturais são as ações humanas que têm tornado as chuvas cada vez mais “atípicas”, para usar uma designação dos especialistas em clima, com consequências dramáticas para a população.

Entra ano, sai ano, os únicos elementos que mudam no mosaico de nossas tragédias anunciadas são as localidades afetadas pelo volume das chuvas e a intensidade dos danos. Às vezes, nem isso. Perene é a incapacidade de administradores públicos, nas três esferas de governo, de compreender a ameaça das mudanças climáticas e agir para freá-las e mitigar seus efeitos.

Ainda falta um mês e meio para o fim da estação chuvosa, mas o Rio Tocantins já registra uma cheia histórica, que desalojou 3,4 mil famílias em Marabá (PA). As chuvas atípicas também deixaram submersos os bairros de 175 municípios da Bahia, causando a morte de mais de 20 pessoas. Cerca de 350 prefeituras de Minas Gerais decretaram estado de emergência. Estradas ficaram intransitáveis por dias em decorrência das enxurradas no Estado, isolando comunidades e dificultando a prestação de socorro. Deslizamentos de terra destruíram parte do patrimônio histórico em Ouro Preto. Já nas Regiões Sul e Centro-Oeste, a seca e uma onda de calor arrasaram lavouras e causaram prejuízos da ordem de R$ 45 bilhões para o agronegócio. Soja e milho, principais grãos da pauta de exportações do País, foram as culturas mais afetadas.

Neste início de 2022, o País registra o maior número de desabrigados e de decretos de emergência por chuvas dos últimos cinco anos. Até o momento, são mais de 60 mil pessoas desabrigadas e cerca de 1,3 mil decretos de emergência, segundo um levantamento feito pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), ao qual o Estado teve acesso, com base nos dados reportados pelas prefeituras ao Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil entre os dias 1.º de outubro do ano passado e 17 de janeiro deste ano. Além dos desabrigados, ou seja, dos que perderam o teto, há os que estão desalojados, que buscam abrigo na casa de parentes e amigos. Estes, segundo a CNM, somam 226.786 pessoas.

Esses tristes recordes tendem a ser batidos ano após ano caso as cidades brasileiras continuem despreparadas para lidar com fenômenos climáticos cada vez mais intensos. Alertas não faltam. Ninguém de boa-fé pode alegar surpresa. “Há dez anos, falávamos em possibilidades. Hoje falamos da realidade das mudanças climáticas”, disse ao Estado o professor Pedro Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP). De fato, a ciência tem feito a sua parte há décadas. Universidades e órgãos como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) produzem dados aos borbotões para ajudar governos a se anteciparem aos acidentes. Mas essas informações, na maioria dos casos, são negligenciadas pelos gestores públicos. “As áreas de risco chamam a atenção agora. Mas e quando parar de chover?”, questiona Côrtes. Uma longa história de descaso corrobora a dúvida do professor.

Há três deficiências fundamentais que tornam o Brasil tão vulnerável aos desastres causados não pelo clima, mas pelo despreparo das autoridades para lidar com as mudanças climáticas. O primeiro é a negação do problema. Há quem pense que a natureza “é assim mesmo” e nada há a fazer, a não ser remediar. Outro problema, em boa medida decorrente do primeiro, é o desprezo pelos dados ou, em uma interpretação mais benevolente, a subutilização das informações produzidas pela ciência. Mas nenhum deles é tão danoso quanto a falta de coordenação federal na formulação e implementação de medidas para deter o avanço das mudanças climáticas.

Jair Bolsonaro é um inimigo das boas causas do País. É o presidente que cortou recursos para a Defesa Civil no Orçamento de 2022 para financiar suas prioridades antirrepublicanas. É o presidente que afirma que “a Floresta Amazônica não pega fogo porque é úmida”. O que esperar de alguém que pensa assim? Resta torcer para que o País volte a ter um presidente que dê à proteção do meio ambiente a atenção que o tema requer.

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