Negligência como padrão

Testagem em massa é o melhor instrumento para um controle assertivo da curva epidemiológica

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2022 | 03h00

Negligência é a marca mais distintiva da gestão de Marcelo Queiroga à frente do Ministério da Saúde. Muito ocupado em acomodar seus ainda recônditos interesses eleitorais, além dos de seu chefe, em meio às pressões de uma realidade implacável, o ministro tem tido pouco tempo para trabalhar como tal, omitindo-se até mesmo do básico, como o fornecimento de testes para detecção rápida do coronavírus pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

É escandalosa a negligência de Queiroga na compra e distribuição de testes rápidos de covid-19. Em setembro do ano passado, o Estado já havia revelado que a Secretaria de Vigilância em Saúde, vinculada ao Ministério da Saúde, deixou apodrecer nos galpões do Centro de Distribuição da pasta, em Guarulhos (SP), milhares de kits para diagnóstico da doença. Outros insumos hospitalares perderam validade antes de chegar a seus destinos.

Agora, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que o Ministério da Saúde levou nada menos do que cinco meses para concluir um processo de aquisição de mais 14 milhões de testes rápidos, ao final do qual a compra acabou sendo cancelada. A “lentidão”, como descreve o relatório do TCU, parece ser o modus operandi da pasta no curso da pandemia, já que processos de aquisição de outros insumos, não apenas os testes rápidos, também não tramitaram em tempo condizente com a premência da crise sanitária.

Pouco após assumir o cargo, Queiroga prometeu tornar o Brasil uma “referência internacional em testagem”. O ministro, que afirma querer ser “julgado pela História”, é dado a grandiloquências. Há dias, por ocasião do aniversário do início da vacinação contra a covid-19 no País, Queiroga afirmou, sem corar, que a distribuição de “mais de 400 milhões de doses é fruto do esforço do governo federal”. Entende-se o interesse do ministro em bajular Bolsonaro para obter seu apoio na campanha eleitoral deste ano, mas é muita desfaçatez afirmar que o governo federal se empenhou em trazer as vacinas para o Brasil quando, no mundo real, sabe-se que Bolsonaro foi o maior sabotador da história do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

No País inteiro, centenas de pessoas aguardam em extensas filas para realizar testes de covid-19 nos postos do SUS. Não há kits em quantidade suficiente para atender à demanda. Muitas pessoas aguardam doentes, apresentando sintomas gripais. Outras, assintomáticas, também podem estar infectadas, mas não sabem. Quem não dispõe de R$ 400 para pagar por um teste na rede privada é obrigado a passar pelo desconforto de uma espera longa que seria facilmente evitável caso o Ministério da Saúde tivesse trabalhado como deveria.

“O ritmo para aprovação de um programa de testagem, bem como das aquisições dos testes, caracteriza-se por ser moroso, o que fragiliza a prioridade que a ação (testagem em massa) necessita ter em um cenário pandêmico”, escreveram os técnicos do TCU. Em apenas um parágrafo, eles sintetizaram a falha primordial no enfrentamento da pandemia: o combate ao vírus nunca foi prioridade do governo Bolsonaro.

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