Nem saldo recorde contém dólar instável

Comércio exterior continua no azul e garante segurança nas contas externas, mas incertezas ainda pressionam câmbio

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2022 | 03h00

Com US$ 61 bilhões de superávit comercial em 2021, um recorde, o Brasil manteve as contas externas em boas condições, graças, principalmente, aos bons preços de minérios e de produtos do agronegócio. Sustentados por vários anos, saldos positivos na conta de mercadorias têm garantido um volume seguro de reservas internacionais, avaliadas em novembro em US$ 367,8 bilhões. Para 2022 o Ministério da Economia estima um resultado de US$ 79,4 bilhões, diferença entre exportações e importações de bens. Mesmo com uma possível frustração, o comércio continuará, segundo se pode esperar, solidamente superavitário. Números como esses bastariam, em condições normais, para desestimular especulações e instabilidade cambial.

Mas as condições do País estão longe dessa normalidade. O dólar continuou instável, depois de publicado o saldo comercial, e foi cotado a R$ 5,70, com alta de 0,68%, no mercado à vista, na manhã de terça-feira. Explicável em parte por fatores externos, essa variação foi atribuída também a incertezas políticas e fiscais. A principal fonte de incertezas tem sido o presidente Jair Bolsonaro, com decisões como reajuste salarial para algumas categorias selecionadas, como a dos policiais, e reações de funcionários da Receita e do Banco Central. Confusões na revisão de benefícios tributários também têm provocado ruídos e causado insegurança no mercado financeiro.

Enquanto o presidente e seus ministros se enrolam em confusões e comprometem o Orçamento com manobras político-eleitorais, o empresariado envolvido no comércio internacional segue batalhando no dia a dia e enfrentando problemas como a quebra de safra do ano passado. Em 2021, as exportações totais, US$ 208,4 bilhões, foram 34% maiores que as do ano anterior. Isso resultou muito mais do aumento de preços (28,3%) que da expansão da quantidade vendida (3,5%). No caso das importações, o volume cresceu mais (21,8%) que os preços dos produtos (14,2%).

A recuperação da economia mundial foi bem aproveitada. Cresceram os valores vendidos para todos os destinos, com destaque para Estados Unidos (44,9%), Argentina (40%), União Europeia (32,1%) e China, Hong Kong e Macau (28%). Este último grupo se manteve como principal mercado de bens exportados pelo Brasil, com participação de 32% no valor das vendas (33,5% no ano anterior). Na parceria individual, os Estados Unidos continuaram em segundo lugar, com 11%, e a Argentina, em terceiro, com 4,2% das compras. Em conjunto, a União Europeia absorveu 13% das exportações brasileiras de mercadorias.

Com vendas de US$ 55,2 bilhões, a agropecuária proporcionou 19,7% da receita comercial, mas a classificação usada pela Secretaria Especial de Comércio Exterior do Ministério da Economia oculta, em parte, a real importância do agronegócio, porque itens como açúcares, farelo de soja e cafés processados aparecem como produtos da indústria de transformação. No cálculo do Ministério da Agricultura, o agronegócio tem normalmente garantido mais de 40% do valor exportado. 

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