Ninguém fica para trás

A repatriação é um processo delicado e complexo. Felizmente, a Nação brasileira está combinando diligência e agilidade para trazer seus filhos em segurança de volta ao lar

Notas & informações, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 03h00

Desde que, no início de fevereiro, o Planalto superou um primeiro momento de hesitação e enviou aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para repatriar cerca de 70 brasileiros confinados em Wuhan, na China, o foco de origem do coronavírus, o Brasil tem cumprido com rigor seu dever patriótico de resgatar os nacionais em outros países afetados pela pandemia.

A repatriação implica uma operação complexa que envolve os Ministérios das Relações Exteriores, da Defesa e da Saúde. Por medida provisória, o Itamaraty recebeu cerca de R$ 60 milhões para este fim. Segundo a pasta, a grande maioria de brasileiros em busca de repatriação é de turistas com dificuldades por causa das medidas de quarentena dos países em que se encontram e dos cancelamentos dos voos comerciais. O Itamaraty está cadastrando aqueles que não têm condições financeiras ou estão em países com restrições mais severas, através dos canais oficiais das embaixadas e consulados e da Agência Nacional de Aviação Civil. O Grupo Consular de Crise conta ainda com a colaboração do Ministério do Turismo e da Embratur para viabilizar embarques, incluir brasileiros em voos de repatriação de outros países, liberar vistos emergenciais e organizar deslocamentos em regiões com restrições de trânsito.

“A prioridade continua a ser dada para que os brasileiros possam ser acomodados em voos comerciais”, declarou em nota o Itamaraty. Na ausência desses voos ou em casos de fechamento de espaço aéreo, “estamos vendo maneiras de pagar voos fretados”, disse o chanceler Ernesto Araújo. “Tentaremos, claro, negociar pelo valor mais em conta possível com as companhias aéreas para trazer de volta os brasileiros. Será a única possibilidade em muitos casos.” Em última instância, pode ser necessário mobilizar aeronaves da FAB.

Nas últimas semanas o número de brasileiros repatriados chegou a 11,5 mil. Cerca de 5 mil ainda estão retidos em países diversos. O maior contingente está em Portugal, de onde já foram resgatados mais de 6 mil nacionais. Cerca de 1.500 ainda aguardam a repatriação. Apesar da quantidade, a situação é menos crítica do que em países onde a circulação é rigorosamente proibida.

O Equador, por exemplo, adotou medidas restritivas de circulação de pessoas e fechou suas fronteiras. Na semana passada, através de um voo fretado da Gol, foram resgatados 160 brasileiros retidos no país. No Peru, mais de mil brasileiros que estavam em Cusco e Lima foram repatriados em voos fretados, além de dois aviões da FAB, mas aqueles em cidades mais distantes ainda enfrentam dificuldades. Como mostrou reportagem do Estado, alguns brasileiros em Arequipa e mesmo em Cusco foram impedidos de sair dos hotéis em que estão em quarentena para embarcar nos voos oferecidos pela embaixada.

Em Cuba, pelo menos 25 turistas brasileiros correm o risco de ser multados ou presos caso deixem a sua hospedagem e, além disso, encontram dificuldade em programar sua saída por causa da escassez da rede digital. Na Índia, onde o governo nacional decretou um rígido confinamento, quase 180 turistas distribuídos em 27 cidades buscam resgate. Na Tailândia, cerca de 200 brasileiros aguardam repatriação.

Há casos especialmente complicados, como o dos quatro brasileiros que embarcaram em um cruzeiro em Buenos Aires com destino a San Antonio, no Chile. Com mais de 1.800 pessoas a bordo, ao menos 2 estão infectadas com a covid-19 e outras 4 morreram. Dois dos brasileiros foram transferidos junto com os demais passageiros sem sintomas para outra embarcação. Agora, os dois navios seguem para Fort Lauderdale, na Flórida, mas as autoridades locais já se manifestaram contrárias ao desembarque.

São em momentos de crise como esta que a palavra “pátria” recobra a sua conotação mais familiar e primitiva de “casa paterna”. Em meio ao pânico disseminado por todo o planeta, a repatriação é um processo delicado e complexo. Felizmente, a Nação brasileira está combinando diligência e agilidade para trazer seus filhos em segurança de volta ao lar.

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