No calor da hora

Os impactos climáticos são mais agressivos e acelerados do que se supunha

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 03h00

Os impactos climáticos são mais agressivos e acelerados do que se supunha há uma década. A temperatura global entre 2015 e 2019, por exemplo, será mais alta que em qualquer período equivalente já registrado. “Ondas de calor disseminadas e duradouras, recordes de incêndios e outros eventos devastadores como ciclones tropicais, enchentes e secas têm impactos imensos no desenvolvimento socioeconômico e ambiental”, afirma o relatório das Nações Unidas publicado por ocasião do debate anual da Assembleia-Geral. O estudo, sugestivamente denominado Unidos na Ciência, foi produzido pelo Grupo Consultivo de Ciências da Cúpula da Ação Climática e compila de maneira altamente sintética as descobertas científicas decisivas mais recentes no domínio das pesquisas sobre mudanças climáticas.

Estima-se que a temperatura global esteja hoje 1,1 grau Celsius acima da era pré-industrial (1850-1900) e 0,2 grau acima da média da temperatura global entre 2011 e 2015. Como resultado, a ascensão do nível do mar está acelerando e a água já se tornou 26% mais ácida do que no início da era industrial, com grande prejuízo para a vida marinha. Nos últimos 40 anos, a extensão de gelo ártico no mar declinou aproximadamente 12% por década. Entre 1979 e 2018 a perda anual de gelo do lençol glacial antártico sextuplicou. As ondas de calor aumentaram os índices de letalidade ambiental nos últimos cinco anos. No verão de 2019 os incêndios florestais na região ártica cresceram sem precedentes. Só em junho as queimadas emitiram 50 megatons de dióxido de carbono na atmosfera, mais do que a soma de todas as emissões no mesmo mês entre 2010 e 2018.

De acordo com a Organização para Alimentação e Agricultura da ONU, o recente crescimento da fome global, após um declínio prolongado, tem entre suas causas principais a variabilidade e os extremos do clima. A frequência das secas aumentou em grandes áreas da África, América Central, Brasil, Austrália e partes do Oriente Médio. Segundo o Fundo Monetário Internacional, as altas de temperatura têm provocado uma perda no PIB dos países em desenvolvimento da ordem de 1,2% para cada 1 grau centígrado a mais.

“Em que pese um crescimento extraordinário em energia renovável”, diz o estudo, “combustíveis fósseis ainda dominam o sistema de energia global.” As emissões de gás carbônico derivadas da combustão de carvão vinham diminuindo desde 2013, mas o crescimento foi retomado em 2017, ao mesmo tempo que emissões do petróleo e de gás seguem crescendo rapidamente, sobretudo em países em desenvolvimento, notadamente na Índia e na China. Nos países desenvolvidos as emissões diminuíram. Os índices per capita mais altos ainda vêm dos EUA, União Europeia, Austrália e de potências petrolíferas como a Arábia Saudita.

Estima-se que, para atingir a meta dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável de limitar o aumento da temperatura em relação à era pré-industrial a 2 graus, os esforços atuais precisam ser triplicados. No caso da meta ideal de limitar esse aumento a 1,5 grau, esses esforços precisariam ser quintuplicados. Tecnicamente, dizem os pesquisadores, isso ainda é possível, mas demandará ações urgentes de intensificação e replicação das políticas mais bem-sucedidas.

Em resumo, os crescentes impactos climáticos intensificam o risco de cruzar limites irreversíveis. “A concretização do Acordo de Paris exige ação imediata e abrangente envolvendo uma descarbonização profunda complementada por medidas políticas ambiciosas, proteção e aprimoramento dos processos naturais de captura de carbono e da biodiversidade, e esforço para remover o CO2 da atmosfera.”

Os pesquisadores apontam três setores que precisam investir diretamente na descarbonização: finanças, energia e indústria. Além disso, outras três áreas são decisivas: soluções baseadas na natureza, ações locais e urbanas e o incremento da resiliência e adaptação às mudanças climáticas, especialmente nos países mais vulneráveis.

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