No caminho do progresso

Há razões para acreditar que o período de dez anos que ora se encerra tenha sido o melhor decênio para a humanidade.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 03h00

Os problemas que desafiam a humanidade são muitos e complexos. Atormenta-nos uma miríade de crises políticas, econômicas, humanitárias e ambientais. A polarização aguda no debate público em diversas sociedades. Uma renitente sensação de insegurança em grandes cidades do mundo. Casos de intolerância racial, sexual e religiosa. A perda de privacidade cada vez maior decorrente do inexorável avanço tecnológico. Um observador com o foco ajustado para as questões prementes do dia a dia terá dificuldade para crer que o mundo está melhorando. No entanto, há boas razões para acreditar que o período de dez anos que ora se encerra (2010-2019) tenha sido o melhor decênio para a humanidade até agora.

Em artigo publicado recentemente no jornal The Wall Street Journal, Johan Norberg, do think tank Cato Institute, enumerou uma série de dados que revelam que, se no varejo os cidadãos de diversas partes do mundo ainda enfrentam muitas e graves mazelas, no atacado a humanidade caminha a passos largos para o progresso. Evidentemente, os problemas que os afetam diretamente, seja como indivíduos, seja como membros de uma sociedade, de um país, hão de moldar com muito mais força a percepção que têm do mundo e determinar a sensação de bem-estar. Ao mesmo tempo, a capacidade de ampliar o olhar e colocar essas questões em perspectiva pode funcionar como uma importante aliada na busca por soluções para os problemas mais imediatos.

De acordo com o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Desenvolvimento Humano, a diferença no padrão básico de vida entre os mais ricos e os mais pobres vem diminuindo. “Um número sem precedentes de pessoas no mundo inteiro tem escapado da fome, da pobreza e de doenças”, diz um trecho do documento.

A conclusão da ONU é consubstanciada por outro relatório, esse elaborado pelo Banco Mundial, que aponta para a drástica redução do índice de pobreza extrema entre 2008 e 2018. De acordo com a instituição, no período avaliado a pobreza extrema caiu de 18,2% para 8,6% da população mundial. Isso significa que ainda há, aproximadamente, 602 milhões de pessoas vivendo em condições miseráveis no mundo inteiro, problema gravíssimo que somente com um esforço global será debelado. Mas o fato é que esse problema já foi muito mais grave.

Os significativos avanços havidos na área de saúde pública nos últimos dez anos são outros indicativos de que se vive um momento positivo sem precedentes na história da experiência humana. Ainda de acordo com relatórios da ONU e da Organização Mundial da Saúde (OMS), um número cada vez maior de pessoas tem acesso à água potável, vacinas e serviços de saúde. Entre os anos de 2007 e 2017, houve uma redução de 60% dos casos de malária em países da África. A pesquisa científica e os avanços da indústria farmacêutica no segmento de medicamentos antirretrovirais fizeram o número de mortes em decorrência da aids cair pela metade no mesmo período.

Neste decênio se observou também um aumento médio de três anos na expectativa de vida em todo o mundo. Além dos avanços terapêuticos e da ampliação do acesso a melhores condições sanitárias, a ONU credita este aumento à redução da taxa global de mortalidade infantil, que caiu de 5,6% em 2008 para 3,9% em 2018. A Coreia do Sul, por exemplo, reduziu sua taxa de mortalidade infantil em 98% de 1950 até agora.

As alterações climáticas são fator de preocupação, em especial porque vicejam em vários cantos do planeta aqueles que, desprezando a Ciência, insistem em negar o problema. No entanto, há hoje mais engajamento de autoridades mundiais, de organizações não governamentais e de cidadãos em questões relacionadas ao clima do que jamais houve.

O populismo e as ameaças à democracia que grassaram no período desafiam a crença no triunfo da liberdade, mas há alentadores exemplos de resistência democrática.

O progresso é construção, é fruto de trabalho individual e coletivo. As evidências atestam que este trabalho vem sendo realizado a contento. 

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