No País de verdade, sinais de recessão

O ministro Paulo Guedes contou em Dubai uma história de crescimento e de bem-estar muito diferente da realidade brasileira

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 03h00

Muito diferente do mundo mágico do ministro da Economia, Paulo Guedes, o Brasil continua emperrado, com baixo crescimento, alta inflação e sinais de mais uma crise recessiva. O ministro repetiu em Dubai a história de um país muito próspero, com forte criação de empregos e crescimento superior à média mundial. Foi um discurso tão crível quanto o de seu chefe, Jair Bolsonaro, sobre a Amazônia preservada e imune a incêndios. No dia a dia do brasileiro comum, o consumo vai mal, a indústria derrapa e os serviços encolhem, como confirmam os dados oficiais e aponta o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Esse indicador serve ao mercado como prévia mensal do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado a cada três meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os negócios diminuíram 0,27% em setembro, segundo o indicador do BC, prosseguindo na queda já ocorrida em agosto, num movimento aparentemente ignorado pelo ministro da Economia. Entre julho e setembro a atividade ficou em média 0,14% abaixo do patamar dos três meses anteriores. No segundo trimestre o índice já havia caído em relação ao primeiro. Produção em queda em dois trimestres consecutivos caracteriza recessão.

A próxima atualização do PIB deve ser divulgada em 2 de dezembro. Se os números acompanharem o recuo do IBC-Br, um novo episódio de recessão estará confirmado. O ministro Guedes ainda terá algum tempo para criar sua explicação, talvez para negar os fatos e, em qualquer caso, para inocentar a si mesmo e, é claro, ao presidente da República.

Com ou sem recessão confirmada, os números continuarão mostrando um desempenho econômico muito ruim na maior parte do ano. Pelos dados oficiais, o PIB do primeiro trimestre foi 1,2% maior que o dos três meses finais de 2020. De abril a junho o resultado foi 0,1% menor que o do trimestre imediatamente anterior, de acordo com as contas nacionais já publicadas pelo IBGE. Mas o avanço no período de janeiro a março, embora vigoroso, foi muito desigual e socialmente muito mal distribuído. Sem auxílio emergencial, cerca de 20 milhões afundaram na miséria, nesse início de ano, e a fome só foi atenuada com o empenho de particulares, de organizações não governamentais e de movimentos ligados a religiões.

Desocupação e subocupação permaneceram elevadas em todo o primeiro semestre. Em Dubai, o ministro falou sobre criação de empregos durante a crise da pandemia. Mas o Brasil encerrou 2020 com desemprego bem maior que o de antes da covid-19. No trimestre móvel encerrado em fevereiro do ano passado os desocupados eram 11,6% da força de trabalho. Um ano depois eram 14,4% da população economicamente ativa. No trimestre móvel até agosto deste ano o desemprego ainda estava em 13,2%. A média está pouco abaixo de 6% nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O Brasil também aparece mal nas comparações sobre crescimento, com os números desmentindo, também nesse caso, o ministro Paulo Guedes. Pela última estimativa do mercado, registrada na pesquisa Focus, o PIB brasileiro deve crescer 4,88% neste ano e 0,93% no próximo. As últimas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam expansão de 5,2% para o Brasil, em 2021, e de 5,9% para o mundo e 6,3% para a América Latina e o Caribe. Ainda segundo o FMI, o mundo deve crescer 4,9% em 2022 e o Brasil, 1,5%. No mercado, há quem preveja a economia brasileira em recessão no próximo ano.

Os números são maiores quando o confronto envolve períodos anuais. De janeiro a setembro, a atividade no Brasil superou por 5,88% a de igual período do ano passado, segundo o IBC-Br. Em 12 meses o crescimento foi de 4,22%. Mas a base é muito baixa. Além disso, a economia brasileira pouco avançou depois da recessão de 2015-2016 e ainda perdeu vigor já em 2019. O desempenho esperado para 2022, próximo de 2%, de acordo com o Ministério da Economia, será, na melhor hipótese, um retorno à submediocridade, mas isso parece orgulhar o ministro Guedes.

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